Histórias Assustadoras Para Contar no Escuro

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Historias Assustadoras

Histórias Assustadoras Para Contar No EscuroHistorias Assustadoras

Historietas de Adolescente

Por Vitor Velloso

 

 

Com as últimas reformulações do terror, alguns projetos estão buscando resgatar questões que vão de encontro às propostas mais clássicas do gênero, seja na forma, ou no conteúdo. Guillermo Del Toro é uma destas pessoas, não à toa, realiza projetos que elevam a “moral e valores”, estéticos e temáticos, do século XX, “o século do cinema”, tornando parte de sua filmografia recente um tanto quanto…reacionária, mas isso é objeto de discussão posterior. Del Toro é produtor do longa “Histórias Assustadoras para contar no escuro”, com isso, diversos objetos oitentistas estão presentes, desta maneira, é possível reconhecer ao longo da projeção diversas referências, não apenas aos longas, mas também aos subgêneros do terror.

Dirigido por André Øvredal (“Trollhunters” e “A Autópsia”), o filme irá remontar alguns clichês de maneira pragmática, buscando um dinamismo nestas fórmulas e ligando-as conforme a narrativa se projeta com as possibilidades de terror. A trama está longe de ser original, mas tenta compensar pela pluralidade de vertentes de ameaças que cria, quantidades diversas de criaturas, estilos de morte etc. Com isso, o longa sofre drasticamente com a irregularidade de suas partes, gerando uma sensação de grandes blocos separados em um projeto só, que é potencializado pelo roteiro que negligencia construção de personagem, quando alguém morre, não sentimos sua perda, pois a ligação do espectador com os protagonistas é tão superficial que não conseguimos torcer por nenhum destino possível. Diferentemente dos slashers clássicos, onde existia uma torcida específica (positiva ou negativa) para alguém, aqui nos tornamos apáticos.

A unilateralidade dos jovens é tamanha, que a personalidade de cada um é introduzida no primeiro plano, sem acréscimos posteriores. Para acentuar isso, nem os amigos dos assassinados parecem sentir tanto a perda destes, resumindo a “dor” com frases de efeito como: “Sinto falta de fulano”, “Fulana teria rido disso”. É um descaso completo com as relações em tela.

Øvredal não possui uma carreira grandiosa, pelo contrário, realizou o frágil “Troll Hunter” e o fraquíssimo “A Autópsia”, porém em “Histórias Assustadoras para contar no escuro” ele busca uma estilização diferente do filme, possivelmente por influência do Del Toro, utilizando a prática da oralidade (que nos leva à montagem paralela) como instrumento essencial de tensão das cenas. Acaba sendo pouco efetivo pela vulgaridade que se apresenta em termos diretos, tornando o jogo de “imprevisibilidade”, algo tão corriqueiro na história que ao reconhecermos o início de mais uma morte, já imaginamos como ocorrerá. A primeira, possivelmente, mais eficaz (com um grande otimismo aqui), gera a falsa impressão que teremos sugestões da ameaça até a concretização da mesma, porém, a fórmula só aparece como lampejo futuramente e tudo torna cíclico demais.

A fotografia de Roman Osin se esforça em concentrar as forças das ameaças na construção da atmosfera da imagem, o que até certo ponto funciona, principalmente na cena do “quarto vermelho”, mas não avança mais e não possui uma diretriz concreta com o diretor. Øvredal trilha o lugar comum e não constrói uma verve própria. É bastante possível sair da sessão com a sensação de ter visto o “It” errado. Toda a pragmática do drama é igual, as soluções parecidas, até mesmo ao assumir um lado mais “trash” de alguma situação a locação é a mesma e a vítima parecida. Não acredito na incapacidade do diretor, mas ele parece estar preocupado em agradar a moral e os valores do produtor, que de fato mergulhar em um filme com possibilidades reais de ser efetivo na proposta. Aliás, a ideia não é ruim, devido o compilado de histórias que são possíveis na trama, afinal, o conceito principal da película é ser imprevisível quanto às situações geradas. O que acaba criando um vácuo curioso no roteiro, ainda que recorrente, a fragmentação do grupo ameaçado diante do perigo iminente.

Durante a projeção, ainda que o sentimento não seja homogêneo na sala de cinema, é possível divertir-se com algumas das situações, mas ao progredir ao desfecho, torna-se um exercício complicado, pois o que antes funcionava com alguma boa vontade, agora é inclinado ao ridículo. A solução do problema é de uma mediocridade tamanha (e, novamente, nada original) que escutei um riso durante a exibição. E não é possível julgar a pessoa. Já que a conjuntura geral da ameaça x a ação de encerrá-la, soa divergente da construção que tivemos até ali, ora, tá bom que nenhum elemento do filme é próprio, é possível ver referência em diversos momentos, mas existem limites.

O terror adolescente “Histórias Assustadoras para Contar no Escuro”, é decepcionante em todos os quesitos e demonstra o quão mimado o roteiro foi, para contar com esse desfecho, por Del Toro. Terror de criança de classe médica mimada de cidade pequena dos EUA.

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