Hálito Azul

O mar, o sonho e a matéria

Por Vitor Velloso

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“Hálito Azul” de Rodrigo Areias é um filme que parece tentar encontrar seu objeto nos meandros do cotidiano de Ribeira Quente. Tentando poetizar alguns retratos o longa caminha entre a pesquisa e o registro, horizontalizando um esquema que vai perdendo força conforme a projeção ganha corpo.

A questão central da obra está em cada um dos seus recortes, realizando uma composição que vai se somando entre os planos. Tanto no registro mais imediato, propriamente documental, quanto nas transas com a ficcionalização, o longa vai contornando seus personagens com dispositivos de linguagem conscientes, definidos pela necessidade de articulação entre a poetização ou o objeto “poetificado” em si e esse retrato imediato. É uma espécie de “Super Orquestra Arcoverdense de Ritmos Americanos” onde o as coisas descambam pra história bruta e material de uma questão memorial/tradicional que rege a protagonista, Ribeira Quente.

Interessante, confuso, perdido, consciente, político, pragmático, burocrático… São muitas questões possíveis para se apontar em “Hálito Azul”, a falta de obviedade é a diretriz que assume as rédeas conforme a montagem passa a transitar entre diversas histórias distintas e descentralizar a própria ideia de representação em cada um dos habitantes enquadrados. Não há a ideia de um registro que não assume posição, da mesma forma que não há um reconhecimento da intervenção como um dispositivo. Esse eterno “meio do caminho” que a obra se encontra, está como parte fundamental do funcionamento da ilha protagonista, em um movimento constante em seu estado de inércia eterno. Isolado por uma imensidão apaixonante de sua única ligação com o resto do mundo. São questões que em um primeiro momento parecem se perder na banalidade mas ganham novos significados com a progressão da obra, pois existe uma espécie de formalidade cíclica da dialética do banal.

A própria ideia do registro surge como um atravessamento da ficção e do documentários, não uma simbiose conservadora, muito menos uma redução dos campos cinematográficos. O que ocorre é uma perda de consciência desse limite, a unilateralização do registro acaba com a dicotomia imposta pela teoria. Nesse sentido, o que Sérgio Oliveira havia proposto no longa de 2016 não era particularmente um método ou exercício mas a cadência de uma imagem que se desprende do campo utópico, realça o material e se constrói a partir de uma montagem que prioriza os espaços e se torna verdadeiramente registro, a partir de um documento que não é possível categorizar.

“Hálito Azul” segue a mesma lógica, encena, registra e compreende as imagens em uma unidade onde o jogo de decifrar perde o sentido e a realidade se torna tudo, e mais um pouco. O personagem barbudo que surge com profecias e desejos não soa tão distante da construção geral, apesar de ser mais explicitamente um elemento que se desloca da matéria. O que importa é a experiência, os desejos, os peixes, o mar, a vida. Até quando o espectador assiste um jogo de sinuca, o assunto é desejo e mar. Se pudéssemos direcionar outra obra que abre diálogo com o filme de Rodrigo Areias, é “Então Morri” da Bia Lessa e Dany Roland e a capacidade cíclica do cinema em compor a realidade através de sua montagem. A consciência é o imutável de uma coletividade expressa na homogeneização de anseios, medos e visões. A própria individualidade se torna uma objeto de pouco valor diante da unidade que o filme apresenta.

Talvez o projeto não consiga grandes fãs por conta de um ritmo lento que não seduz com grande facilidade, mas o espectador que decidir investir um tempo em “Hálito Azul” pode vislumbrar um dos retratos culturais mais honestos que podemos relatar no presente ano. Além disso, debater a tautologia materialismo x cultura sem a problemática de um conservadorismo que impede o processo de raciocínio. Assim como outros registros, ao fim da projeção do longa, o sentimento está entre “Tudo já foi dito” e “Não há nada para se debater”.

De fato, o conteúdo está ali, com uma presença que nega grandes discussões, mas longe do mar e dos anseios, resta teclar um pouco pra ver se o sonho retorna.

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