Hair Love

Poderes Emergidos

Por Jorge Cruz

O ponto fundamental de “Hair Love“, um dos cinco curtas-metragens de animação indicados ao Oscar 2020, é trazer à superfície de um grande palco como a cerimônia da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas um assunto tratado há muito por produções audiovisuais que, por forças das circunstâncias, não atingiram o mesmo contingente de público que essa obra da Sony Pictures Animation.

O empoderamento da mulher negra, que por séculos sofreu uma imposição de valores que diziam que seus cabelos eram motivo de vergonha, é uma das grandes desconstruções dos últimos anos. Conquistas que parecem em um primeiro momento menores e frutos do capitalismo (como o lançamento de produtos específicos para penteados que valorizem suas estruturas), ainda possuem um status de grande avanço. Um debate que precisa ser apresentado logo na infância, para que não se mostre necessária uma nova desconstrução das novas gerações.

Em 2015, quando Yasmin Thayná apresentava pela primeira vez seu inspirador curta-metragem Kbela talvez fosse impensável uma obra como “Hair Love” chegar a quase 15 milhões de pessoas no YouTube – e exibida nos cinemas antes das sessões de “Angry Birds 2. Com um orçamento inicial de 75 mil dólares, o diretor Matthew A. Cherry (um dos produtores executivos de “Infiltrado na Klan”) promoveu um programa de financiamento coletivo que bateu recordes no site Kickstarter, arrecadando quase quatro vezes o programado. Esse interesse chamou a atenção da Sony, que fez proposta de distribuição.

A ausência de verbalizações funcionam menos do que o esperado nessa produção dirigida por Cherry ao lado de Everett Downing Jr. e Bruce W. Smith. A figura paterna como o adulto da trama, inspiração também de Cherry a partir de vídeos em que pais interagem com suas filhas assistidos na internet, baseia a relação quase toda no gestual. Se por um lado isso dá força justamente ao ato mais necessário em nossa sociedade (o gesto), em outros há algumas mensagens que, minimamente, precisam ser ditas. Nesse ponto, curtas-metragens como Vivi e o Quadro Mágico, que vem percorrendo os festivais nacionais desde 2019 com uma igualmente poderosa lição de feminismo para crianças, é bem mais eficiente.

Como não poderia deixar de ser, “Hair Love” tem uma clara proposta de fazer o espectador colocar para fora todas as lágrimas que ele consegue produzir após cinco minutos de ambientação. À luz dessa maneira de aliar representatividade e emoção, somado ao já dito incremento de acesso a uma produção com temática bem-vinda, faz todo o sentido a crescente receptividade do curta-metragem.

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