Graças a Deus | Crítica

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Sensações reativadas

Por Fabricio Duque

Durante o Festival Varilux de Cinema Francês 2019

Discursos político-sociais são quase sempre mais efetivos quando optam pelo humor espirituoso, porque torna sua ideológica tradução ainda mais crítica e mais direta. Se analisarmos binariamente o conceito, perceberemos que na essência só há duas formas de se conduzir uma história: pela comédia ou pelo drama.

O cinema clássico francês, especialmente o da Nouvelle Vague, escolheu a primeira (ainda que o elemento dramático esteja presente, há um sarcasmo naturalista, envolvente e espontâneo), aprofundando seus temas universais por uma existencialista imersão psicológica.

Contudo, há realizadores que migram à seara tradicional, embrenhando suas histórias pelo tom da seriedade convencional sem os característicos alívios cômicos, a fim de potencializar os sentimentos causados pelos dramas vivenciados de suas personagens. François Ozon (de “Oito Mulheres”, “Dentro de Casa”, “Frantz”) é um deles, que escolheu adentrar em uma nova narrativa.

Conhecido pela libertária forma do pensar e do agir, o diretor em seu mais recente filme “Graças a Deus” constrói um conto maniqueísta em um informativo-jornalístico estudo de caso “ficcional baseado em histórias reais” (que faz inferência à temática semelhante de “Spotlight: Segredos Revelados”, de Thomas McCarthy) versado nas consequências emocionais de traumas causados por abuso de vulnerável.

“Graças a Deus” é muito mais que uma crítica explícita a padres pedófilos e ou pela manipulação mental da Igreja Católica pela fé incondicional, que acoberta os próprios “pecados”. É um papel de cognição antropológica comportamental, provando que um passado não resolvido adultera um presente pacífico e um futuro esperançoso.

O longa-metragem aborda a trama pela dramaticidade, muitas vezes antinaturalista nos diálogos mais forçados, como ensaios de uma obra em preparação. Busca-se a organicidade ingênua pelo fisiologismo das ações, que querem importar e personificar uma inocência perdida. Um saudosismo traumático.

Uma nostalgia de memória reacordada (assim talvez possa embasar a encenação da emoção, como o choro e uma sensação distante que precisa ser reativada), como a ambiência das orações e a presença das digressões adaptadas a uma reconstituição de caso. Tudo pela simetria, direcionando perspectivas da imagem, com a “revelação” da narração teatralizada, didática e amplamente explicativa de direcionadas cartas-testemunha e suas respostas réplicas.

“Graças a Deus” é um filme-coral (de núcleos aprofundados) denúncia contra o vício de uma “doença crônica” (“curar aflições da Igreja”). Que confessa segredos “divinos” para apaziguar a alma com o certo, apesar das constantes desaprovações dos outros próximos, que se sentem desconfortáveis, com toda verdade vindo à tona. E que vê no retorno uma maneira de “consertar” o passado. De enfrentar de novo os novos medos nossos quando (re) assombrado. E não compactar com a confortável solução da “realocação”, e sim a “exoneração”; modificar “etimologias” (o significado de pedofilia é amar as crianças) para “pedossexuais”; e não permitir a “prescrição das vítimas”.

É também uma análise existencialista sobre a hipocrisia do poder religioso na sociedade (que “Graças a Deus” torcem para que “todos estejam prescritos”). Que fecha os olhos ao erro por ser condicionada à deturpação massificada de tal crença. Em tom de novela, o filme quer desmascarar os crimes, expor os culpados e destituí-los da redenção cúmplice. De não ter medo de contar aos filhos o que aconteceu. De confrontar os pais que se calaram no momento do acontecido. De não mais se importar com o rótulo e fazer o certo. É furar a “mordaça do silêncio” de mais de trinta anos. “Para que mais?”, pergunta um incrédulo. “Pare de remoer o passado e monopolizar o sentimento”, complementa outro. O que querem? Uma “mensagem simbólica”. “Deus está ultrapassado?”.

“Graças a Deus” utiliza-se da narrativa fragmentada (intercalada com metáforas-exemplos de desenhos animados como o de “Tom e Jerry”) em conflitos modernizados (um peso da vida) para discorrer com investigação, coragem, força de vontade e luta contra os “violadores” infantis, estes que confirmam tudo que fizeram: a atração por crianças. Em suas cabeças, sua “doença” (de “velho inofensivo”) os compensa com o benefício celestial. A Igreja acoberta e quer “evitar publicamente o tumulto”. É um tabu auto-protetor e retroalimentado (do “lobo no aprisco”), transmitido aqui pelo mecanicismo superficial, robótico e sem emoção.

O filme, exibido no Festival de Berlim 2019 (vencendo o Urso de Prata de Grande Prêmio do Júri) quer mostrar que uma “andorinha só também faz verão”, semeia o caos aos algozes e inicia um movimento de luta social contra “estupros consentidos”. De tirar a “poesia” para apresentar um discurso “mais neutro”. Mas aqui a música sentimental mantém a manipulação emocional da lágrima solitária e de exceder a potência da reação das “zebras”. O filme causou um embate político-social-religioso: advogados do sacerdote acusado por pedofilia, Bernard Preynant, entraram com uma liminar para que fosse adiada a data de estreia do filme na França.

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