Glória à Rainha

Nem todos os artistas são jogadores de xadrez, mas todos os jogadores de xadrez são artistas

Por João Lanari Bo

Durante o Festival É Tudo Verdade 2021

O autor da asserção acima foi ninguém outro que Marcel Duchamp, o artista entre os artistas, aquele que desconstruiu de vez o estatuto aurático da obra de arte – e que, nas horas vagas e não-vagas, foi um exímio jogador de xadrez. Outra de suas provocações: “O xadrez é um esporte. Um esporte violento”. A definição é áspera, mas visualmente útil para situar esse jogo milenar no imaginário moderno. Imagine agora, leitor, um belo e pequeno país, imerso numa região de conflitos também milenares, a Geórgia: pois foi a Geórgia que ofereceu ao mundo as quatro melhores jogadoras de xadrez, em 1982, na Olimpíada Mundial de Xadrez em Lucerna, na Suíça, quando as georgianas Nona Gaprindashvili, Maia Chiburdanidze, Nana Alexandria e Nana Ioseliani conquistaram a medalha de ouro pela União Soviética. As quatro personalidades dessas jogadoras excepcionais, suas vivências e conquistas esportivas, é o tema de “Glória à Rainha!”, codirigido pelas georgianas Tatia Skhirtladze e Anna Khazaradze, em cartaz no “É tudo verdade 2021”.

Muito pouco se sabe sobre o início do xadrez: uma boa narrativa é a hipotética origem indiana, há uns 1.500 anos… o jogo consistia em peças de guerreiros inspiradas em animais para capturar o rei do oponente. As posições representavam vitórias e perdas, e os movimentos aplicações matemáticas, exigindo habilidade dos jogadores e pouca ou nenhuma latitude para acasos fortuitos. Veio o Islã e o xadrez foi empregado especialmente para treinar a alma do guerreiro “sem derramamento de sangue”, e também sem o uso de imagens simbólicas, somente com peças abstratas: na Europa cristã, o xadrez retomou a analogia simbólica da concepção das peças e evoluiu para um sistema no qual cada peça fazia sua parte, ou seja, uma alegoria da divisão social do trabalho (talvez por isso é que Lenin gostava tanto de jogar). Inserido na ordem burguesa, o jogo adquiriu um alento romântico e popularizou-se. Aqui, em “Glória à Rainha” chegamos ao cerne do documentário: a linha do tempo que afeta as jogadoras, a mesma que divide a Geórgia, ex-república soviética, à Geórgia independente, a partir de 1991. Entrecruzando cenas das quatro protagonistas, antes (material de arquivo) e depois da queda do comunismo (filmagens contemporâneas), o filme ressalta, com sutileza, a primazia do “esporte” xadrez no mundo soviético, com sua estrutura hierarquizada das relações de trabalho, e o estímulo à concentração mental e à disciplina profissional.

Não que do outro lado da Guerra Fria, o capitalismo, não houvesse hierarquia e disciplina: mas o apreço soviético por conquistas esportivas, onde se inclui o xadrez, é notório, o jogo era uma verdadeira obsessão nacional, cada família tinha seu próprio tabuleiro. O bem sucedido seriado da Netflix, “O Gambito da Rainha”, ilustra a rivalidade no xadrez entre “sistemas” que marcou o mundo pós-Segunda Grande Guerra. Em “Glória à Rainha!”, o conflito Leste x Oeste não é destacado: em compensação, o sexismo salta aos olhos, realçado pelo depoimento das enxadristas, em particular da pioneira Nona Gaprindashvili, a primeira mulher a receber o título de Grande Mestre de Xadrez, em 1978. Nona foi umas das primeiras a jogar contra homens: na série da Netflix seu nome é mencionado pela protagonista, afirmando, incorretamente, que ela “nunca jogou contra homens em competições”. O xadrez, mesmo não sendo um esporte físico, prima pela distorção sexista: das 1.928 pessoas em todo o mundo que receberam o título de Grande Mestre, oficialmente criado em 1950, apenas 37 são mulheres. E somente uma mulher, a chinesa Hou Yifan, com 27 anos, está entre os 100 melhores do ranking Mundial da Federação Internacional de Xadrez, ocupando o 88º lugar.

Entre as quatro do documentário em tela, Maia é a mais religiosa: vai regularmente à igreja, cobre a cabeça e é muito ligada ao cristianismo ortodoxo. Foi ela quem conseguiu derrotar a poderosa Nona e tornar-se campeã mundial. Para jogar essa partida, o regulamento previa que oito mulheres pré-selecionadas iriam competir entre si, e a vencedora disputaria a final. Maia estava inicialmente em nono lugar, fora das oito primeiras. Mas então uma das mulheres resolveu mudar de sexo e tornar-se homem. Maia ocupou o lugar, venceu a eliminatória e derrotou Nona. “Glória à Rainha!” é também uma homenagem à “rainha”, ou “dama”, que é, como se sabe, a peça mais importante do tabuleiro de xadrez, movimentando-se sem limitação do número de casas ou na direção em que se desloca. O “rei”, em contraposição, tem os movimentos limitados, mas não pode permanecer sob ameaça das peças adversárias em nenhum instante, devendo ser colocado em segurança imediatamente no movimento seguinte, caso seja atacado.

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