Futebol Infinito

Uma partida da ideia versus a utopia

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Berlim 2018

Futebol é comprovadamente uma das paixões de Corneliu Porumboiu, premiado realizador de “A Leste de Bucareste” e “O Tesouro” e que já abordou o tema em “O Segundo Jogo”. Em “Futebol Infinito”, exibido na mostra Forum do Festival de Berlim 2018, o romeno contrói, com a estrutura de documentário, um diálogo de mudança tática e sócio-comportamental pelo viés academicista em setenta minutos de duração. Quando o longa-metragem escuta Laurenti Ginghina, um amigo e agora burocrata, então percebe as novas ideias-sugestões (muitas soando como absurdas) para fazer com que esse esporte possa “se libertar de suas amarras”.

A narrativa de “Futebol Infinito” é simples e clássica. Uma conversa de situações que se percebe que o protagonista-personagem “fraturou a tíbia (osso não calcificado) por causa das regras erradas do futebol”. Entre metáforas a Robinson Crusoe, Laurenti fez “intensivo” e “estudou tudo para entender” e para poder argumentar com as oponentes soluções. Com câmera na mão, Porumboiu envereda-se pelo cinema direto, em que tudo pode acontecer e assim embasar o material-resultado que talvez não consiga pelo artifício de se reconstruir a história.

O filme é um preciso conto. Em detalhes e sensações de tudo o que aconteceu e suas consequências, como andar dois quilômetros. A fotografia corrobora a escolha quando imprime uma cor apática, quase de realidade etérea, algo como uma viagem surreal à moda do seriado “Além da Imaginação”. Nosso “inventor” quer muito mudar as regras do jogo com as ideias “sérias”, por causa da “tendência das formas”. Quer dar mais “fluidez” à partida ainda que “não seja tão pratico para movimentar a bola”.

Sim, toda e qualquer história, se interessante e/ou curiosa, atiça a curiosidade de todo e qualquer espectador. É basicamente isso: um personagem não usual e comum, que divide sua “obsessão” com o trabalho “formal” do escritório. A câmera, mais uma vez, parece ter vida própria e improvisa, de forma quase caseira, virando o foco a seu diretor, o “juiz” da trama, que olha e conversa com ele sobre banalidades do que o “pleiteador” faz no dia-a-dia. E aos poucos, as novas regras são apresentadas, como dividir o futebol em duas sub-equipes. É um filme que se deixa acontecer, que desvia a história com os acasos, em tempo real e não editado, como por exemplo, uma senhora de noventa e dois anos, com “boa saúdo”, que olha para a câmera. Cada vez percebemos mais um sarcasmo implícito, que estimula o conflito. Natural e espontâneo. E que causa defesas mais agressivas na resposta. “Não sabe ler”, rebate-se.

Em “Futebol Infinito”, eles falam e falam. E escutam. E incluem acontecimentos históricos, como vinte e sete anos depois da revolução. Assim, quando se menos espera, o diretor atesta sua veia social, crítica e entusiasmada contra os desmandos governamentais e industriais da Romênia (na “União Europeia”).Nós percebemos que o futebol é apenas um pano de fundo e que o filme é um pessoal discurso político. De convicções e crenças (pós 11 de setembro) não América, a “terra da oportunidade”. A câmera estática impõe o tema, que é discutir a política e a economia da Europa para “mudar as regras do jogo”. Na próxima cena, a câmera segue a bola. Sim, a personagem principal de todo longa-metragem é a câmera, um revolucionário simbolismo-metalinguagem do “futebol política”, em que a “bola tem que ser livre”.

Dessa forma, entre República de Platão, fotos de casamento, ponteiros de relógios, “amor punido”, contradição e “super-heróis com vida dupla” (que “salvam a humanidade”, igual “na vida real”), Corneliu mantém as rédeas e um controle absoluto da direção, até para abordar a religião, que “anda muito devagar”, e a violência, que “não é boa”. Busca-se a utopia. A certa liberdade.

E após a verborragia de “Futebol Infinito”, o silêncio e as fitas antigas de arquivo. De animais mágicos em uma natureza animada. Sim, o realizador, um encantador de serpentes, com propósito amador cria seu universo único e particular, unindo nostalgia, passado, simplicidade, o amor pelo futebol e o sarcasmo para lidar com o entendimento do mundo político em que vive. Todas as estradas levam ao futebol, mas também todas as estradas se afastam dele, para questões de propriedade da terra, para fazendas de laranja na Flórida, para os traços deixados pela vida, para a versão 2.0, 3.1, 4.7, até o infinito.

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