Furiosa: Uma Saga Mad Max
Um prelúdio fabular
Por Pedro Sales
Festival de Cannes 2024
De um policial que busca vingança nas pistas australianas contra a gangue que matou sua família, para uma luta pela sobrevivência ao lado de mulheres que buscam escapar da tirania do imperador, a franquia Mad Max se modificou ao longo dos anos. A distância entre “Mad Max” (1979) e “Mad Max: Estrada da Fúria” (2015) não é apenas temporal, mas também temática, de universo. O mundo, via de regra, é um só: lugar assolado pela falta de gasolina, rodeado pelo imponente deserto. Portanto, tendo em vista como a franquia se modificou ao longo dos anos, é natural que este “Furiosa: Uma Saga Mad Max” se diferencie do antecessor. Com mudanças no tom e na estrutura narrativa, o longa consegue habilmente expandir o universo criado por George Miller e manter os traços da ação alucinante, responsável pelo sucesso estrondoso de “Estrada da Fúria”. É também um filme mais preocupado com os personagens. Por meio de um caráter fabular, a lenda da personagem-título vem à tela.
A pequena Furiosa (Alyla Brown) vive no Lugar Verde de Muitas Mães, um oásis em meio à vastidão desértica da Terra Devastada. O lugar secreto, onde tudo parece em perfeita sintonia, com água, vegetação, tecnologia simples, mas efetiva, logo é descoberto por uma gangue de motoqueiros liderada por Dementus (Chris Hemsworth). Eles levam a criança até o senhor da guerra na tentativa de alcançarem a terra de bonança de onde ela veio. Inicia-se, então, uma luta pela sobrevivência e, mais do que isso, o sonho de retornar para casa. Dentro desse período, Furiosa (Anya Taylor-Joy) é vendida, escapa, torna-se uma Pretoriana e planeja sua vingança contra quem tirou tudo que tinha. A narrativa é segmentada em cinco capítulos, o que traz certo dinamismo e reforça o caráter de contação de história. Não é por acaso que o longa é narrado pelo History Man (George Shevtsov). Assim, existe um tom mitológico, como um Homero que rememora os feitos dos heróis gregos. Há referências, inclusive ao Cavalo de Tróia, e uso de simbologias cristãs, como Éden, a Terra Prometida e o próprio deserto.
Outro fator de “Furiosa: Uma Saga Mad Max” que também contribui para essa construção narrativa é o exagero. Os personagens de George Miller são caricatos, histriônicos, o que certamente deixa as relações ainda mais maniqueístas e uma separação muito clara entre o Bem e o Mal. Para além do nome dos personagens – Dementus, Scrotus e Rictus Erectus (este último já estava em “Estrada da Fúria”) – que tendem ao ridículo, as próprias performances se valem disso. Chris Hemsworth transita facilmente entre essa chave cômica e alucinada. Da mesma forma em que consegue ser cruel e implacável, também é risível. Neste sentido, este longa está mais próximo do antecessor de Miller, “Era Uma Vez um Gênio” (2022), do que de “Estrada da Fúria”. Há a valorização da oralidade na construção das histórias, dos personagens, além das aproximações mais claras com o fantástico que se dão aqui pelo exagero visual dos personagens. Essa escolha narrativa é a responsável por construir uma aura em torno da personagem-título e engrandece ainda mais o filme de 2015 na medida em que promove um aprofundamento emocional.
Apesar dessa clara abordagem fabular que o longa assume, como se de fato encarnasse uma lenda, a obra não perde o DNA da ação mais frontal e direta tão característica à “Estrada da Fúria”. A estilização de George Miller explora o vermelho e o laranja no deserto, desde a areia até o céu, quando propõe planos em contraluz. O dinamismo da ação, por sua vez, é evidenciado pelo contraste entre aceleração e câmera lenta e pelos zooms extremamente expressivos que ora nos colocam mais próximos dos personagens pouco antes de um acontecimento impactante, ou mesmo das próprias máquinas nas estradas, caminhões e motos modificadas – até como se fosse uma biga. A câmera também atua na construção da tensão e sua própria movimentação consegue sustentar sequências longas de ação com pouco ou nenhum diálogo. Ela acompanha com gruas, planos sequências as cenas de ataques, perseguições e sobrevivência. Ao não fragmentar a ação e permitir sua continuidade, Miller traz maior sensação de risco e uma fluidez visual necessária para fruição dos acontecimentos. O diretor, às vezes, também flerta com a violência mais gráfica, a fim de ressaltar a crueldade que assola a Terra Devastada e os interesses contrastantes de Immortan Joe (Lachy Hulme) e Dementus.
“Furiosa: Uma Saga Mad Max” é uma expansão muito concreta da mitologia Mad Max. Ao reconhecer a necessidade de maior aprofundamento na história de Furiosa, George Miller se propõe a mudar o tom e contar a história como uma fábula, uma lenda antiga. Anya Taylor Joy sustenta a força sisuda de Charlize Theron, mas com a transparência da revelação do que a fez ser daquele jeito. Com um ritmo certamente mais dilatado que o antecessor, marcado por uma ação constante, este longa consegue inserir as negociatas e política por traz da Terra Devastada e manter as ótimas sequências no deserto com uma carga equilibrada de tensão, violência e destruição. Pretorian Jack (Tom Burke) e Furiosa reacendem a atenção do espectador a cada tiro. O virtuosismo técnico da obra, que passa desde a caracterização dos personagens, figurino, maquiagem, até o trabalho de câmera lida com o artificialismo do CGI que remete à aura fantástica pretendida, do retorno para casa quase impossível enquanto a tirania toma a Cidadela. É interessante, ainda, como George Miller faz questão de amalgamar os dois filmes. A conclusão deste se dá onde começa o outro, conforme os créditos finais evidenciam. Como se fossem parte um e dois da mesma história: uma com caráter mais fantástico, outra mais calcada na ação.