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Free Chol Soo Lee

Uni-vos!

Por Giulia Dela Pace

Festival de Sundance 2022

Free Chol Soo Lee

O movimento amarelo – pessoas autodeclaradas amarelas são aquelas do extremo leste asiático, e seus descendentes, após diásporas de guerra e problemas gerados por períodos de extrema desigualdade socioeconômica – no Brasil é um pouco mais recente que o movimento nos Estados Unidos, ainda que ambos sejam comparavelmente mais novos que o movimento negro, por exemplo. Isso porque, muito se fala sobre certo “privilégio” da pessoa amarela em “se passar” por branca, que de certa forma acaba por ser uma “vantagem” – entre muitas aspas – em certos contextos, mas que prejudica a visão que pessoas racializadas podem ter sobre sua própria etnia e experiências como vítimas de racismo. E é sobre essas situações consideradas como “não-violentas”, ou menos violentas do que seriam com pessoas negras, por pessoas brancas atualmente, e à época, que “Free Chol Soo Lee”, de Julie Ha e Eugene Yi, escancara essas como eventos completamente insensíveis e agressivos.

“Free Chol Soo Lee” é um documentário de imagens de arquivo que remonta a história de uma vítima do sistema judiciário estadunidense e vítima indireta da Guerra Fria – tendo em vista que a infância de Chol Soo Lee foi completamente violentada durante a Guerra da Coréia – motivada e causada pela Guerra Fria e, consequentemente, a nação da águia perversa –, motivo pelo qual ele e a mãe imigraram para os Estados Unidos. Sem muitos recursos poéticos, o objetivo do documentário é claro: expor toda a situação no antes, durante e depois de todos os eventos ligados à vida desse cidadão coreano nos Estados Unidos.

Um documentário que não explora muitos recursos “interpretativos” e poéticos – levando em conta seu objetivo e conceito expositivo –, mas que não deixa faltar com essas ferramentas que conseguem dialogar perfeitamente bem com momentos mais sensíveis abertos para essa montagem. Assim, vemos a música e a união das pessoas que entrelaçam com as imagens e momentos de total catarse daqueles voluntários por uma única motivação em suas vidas durante um período de tempo: libertar um homem inocente vítima de racismo.

Assim, a montagem é cuidadosa e ainda mais com as afetuosas entrevistas  e organização audiovisual que transbordam toda a agressividade, ira e energias positivas do movimento organizado entre advogados, familiares, civis voluntários e acadêmicos amarelos que se uniram para trabalhar no caso Chol Soo Lee. Todas as pessoas, estranhos uns aos outros, unidas para usar o sistema contra o próprio sistema, trabalhando de dentro da máquina a fim de dar voz àqueles que são calados e oprimidos por ela. Lindo, lindo, lindo é ver a eficiência e a potência de movimentos sociais quando organizados.

Um ponto importante para ressaltar sobre este documentário, apesar de ser “apenas” uma produção expositiva – os documentários mais vulgarizados e frequentemente esquecidos no churrasco da avaliação artística cinematográfica –, não deixa de ser pensada como um marco da atual e crescente conscientização racial que vemos atualmente. Seja do movimento negro, seja do movimento amarelo.

Fato particularmente importante, se considerado o histórico de produções hollywoodianas. Isso porque, no começo de Hollywood, pessoas amarelas – para nem falar de mulheres e judeus do leste europeu – eram tratadas, e ainda são, em filmes de relativamente recentes, como a produção “de massa” “A Hora do Rush” (1998), “Para todos os Garotos que já Amei” (2018) e “Bater ou Correr” (2000). O último filme, que aliás, seria o reboot de “That Chink at Golden Gulchbroken” do famoso racistão: D. W. Griffith. No original o diretor não falha e coloca logo um ator branco para fazer o clássico yellowface, tão grave quanto o blackface, embora menos comentado. Enquanto na nova versão ao menos temos um ator realmente chinês para interpretar um chinês, coisa incomum de Hollywood – afinal, um filipino pode ser latino ou coreano que tanto faz, não é mesmo?

Dessa maneira, sempre vimos o apagamento do protagonismo amarelo, pois é sempre o amigo hightech nos anos 2000, o serviçal parceiro no cinema mudo e um cara chinês se passando por coreano… Mas por essas razões, principalmente a última, Chol Soo é preso. E Julie Ha e Eugene Yi deixam isso muito claro.

Por fim, a situação da população amarela no cinema como vimos e vemos continua na mesma, e pode evoluir até mesmo para um caso judicial grave como é o caso mostrado em “Free Chol Soo Lee”… Mas isso é são os Estados Unidos, isso é Hollywood, bebê! O único lugar possível onde se distingue Margot Robbie de Emma Mackey ou Ben Affleck e Ryan Reynolds, sendo que eles são exatamente… iguais.

5 Nota do Crítico 5 1

Trailer

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