Foro Íntimo

Quando o conteúdo sabota a forma

Por Pedro Guedes

De um ponto de vista estético/formal, “Foro Íntimo” é uma obra relativamente bem-sucedida, com alguns momentos de destaque e que, de vez em quando, surpreende o espectador com alguma decisão plasticamente interessante. Em contrapartida, por trás deste panorama bonitinho e jeitosinho, há também um conteúdo que, honestamente, não consegue sustentar a experiência como um todo. Mas vejam bem: o problema não está no filme se resumir à sua estética – aliás, creio que o resultado se sairia bem melhor caso se preocupasse apenas com isso (a estética), sem se preocupar muito com o conteúdo em si –; o problema é que, ao mesmo tempo, o roteiro de Guilherme Lessa e Ricardo Mehedff (este último também dirige o longa) se propõe a contar uma história. E se Foro Íntimo” funciona bem como experiência formal, infelizmente deixa a desejar como experiência narrativa.

Chamando a atenção do espectador logo em seus segundos iniciais, quando enfoca o concreto de um dos edifícios que abrigarão a maior parte do que virá a seguir, o roteiro de Lessa e Mehedeff gira em torno de um juiz criminal que, mesmo sem ter cometido crime algum, acaba sendo preso injustamente. Constantemente ameaçado de morte, ele terá que ser monitorado e preservado por um esquema de segurança pesadíssimo, passando o resto de seu tempo trancafiado no escritório do Fórum de Justiça – e isto, claro, implica em manter-se longe de seus familiares, amigos e entes queridos em geral. A partir daí, o filme passa a girar em torno do dia a dia do tal juiz, tentando criar uma tensão de vez em quando ao sugerir que alguém possa estar vindo para ameaçá-lo.

E, se o filme apenas tenta criar tensão, é porque a direção de Ricardo Mehedeff raramente é bem-sucedida neste sentido, mostrando-se protocolar, calculada e certinha demais para fazer jus à instabilidade representada pela situação em si. Por outro lado, até os recursos mais ousados que o cineasta têm à disposição são empregados de maneira excessiva – e a mania de saltar o eixo o tempo todo, em especial, é repetida ao ponto de se tornar não apenas ilógica, mas irritante. Como se não bastasse, o roteiro de Mehedeff e Lessa mal consegue explorar o potencial dramático de sua premissa, resumindo-se a uma longa sequência de cenas que pouco têm a dizer e que quase soam como um imenso vazio; sequências estas que Mehedeff faz questão de piorar ao dirigi-las com o máximo de autoindulgência, esticando a duração de cada uma delas e, com isso, deixando o filme aborrecido em diversos momentos.

Agora, se encararmos “Foro Íntimo” como um mero exercício estético, o resultado se torna um pouco mais palatável. Em termos de ambientação, Mehedeff faz um ótimo trabalho ao estabelecer o confinamento de todos aqueles personagens, atirando-os dentro de quatro paredes do primeiro ao último segundo de projeção – e o fato de pontualmente apontar a câmera para a região externa do prédio, mostrando sua fachada e suas imensas paredes de concreto, representa um sufoco ainda maior, como se estivéssemos vendo a luz do dia sem que pudéssemos aproveitá-la devidamente. Além disso, a razão de aspecto reduzida (quase quadrada) alimenta a ideia de que há pouco espaço para aquilo retratado na tela, ao passo que a fotografia em preto e branco ajuda a refletir os contrastes (não só visuais, mas também existenciais) que os personagens carregam dentro de si, criando ainda alguns momentos específicos que surgem brilhantes na maneira como exploram o desconhecimento acerca daquilo que está bem na nossa frente (há uma cena na qual uma silhueta aparece magérrima ao fundo, esmagada pelas luzes estouradas ao seu redor, e vai se aproximando da câmera até ficar nítida e bem definida aos olhos não só do espectador, mas do próprio protagonista).

Durando apenas 77 minutos, “Foro Íntimo” ainda assim é um filme que parece durar bem mais do que isso, já que boa parte de suas cenas se arrasta além do necessário e torna-se prolixa de modo geral, causando uma sensação de inchaço que, claro, não faz bem à obra como um todo. Talvez Mehedeff devesse se concentrar apenas nos aspectos formais de seus trabalhos, já que, a julgar por este longa específico, o Cinema narrativo não parece ser bem a sua zona de conforto. Mas que “Foro Íntimo” é uma experiência plasticamente intrigante, é.

 

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