Fim de Festa

Liberdade transmutada e paradoxal

Por Fabricio Duque

Durante o Festival do Rio 2019

O realizador Kleber Mendonça Filho disse certa vez em uma entrevista que não conseguia explicar a força do cinema pernambucano. Alguns anos depois dessa colocação, nosso site refez a pergunta e a resposta não mudou. Sim, talvez o sucesso venha dessa falta de definição, até porque a máxima popular mantém que “quando algo é definido, torna-se limitado e automaticamente morre” por causa da padronização e das confortáveis fórmulas-cartilhas.

Em seu mais recente filme, “Fim de Festa”, de Hilton Lacerda (do imperdível “Tatuagem” – que até agora figura entre os dez mais do Vertentes do Cinema), corrobora a orgânica libertinagem estética de seu diretor, que desconstrói moralidades com o coloquialismo  da plenitude do ser. Humano enquanto indivíduo social, precisando assim provar a existência para todo mundo que não precisava mostrar nada para ninguém.

Como se fosse um hippie engessado que potencializa a própria transgressão a fim de marcar território em um ambiente hostil e indecifrável. Há uma simplista complexidade comportamental que beira o absolutismo defensivo, de se estar sempre alerta e pronto para a batalha dos incontestáveis policiamentos de outros, que também não sabem o porquê de serem assim (e/ou porque pensam desse jeito – apenas repetindo condicionamentos impostos por anos a fio).

“Fim de Festa” é uma revolução transcendental ao potencializar nossas falhas e incompatibilidades. É um sistema retroalimentado de migalhas, orgulhos, violências e carências. Como humanos sendo essencialmente humanos, mas pretendendo a transmutação utópica da forma-filosofia de máquinas irracionais. Aqui é um filme de passional catarse ideológica, de luta anárquica e de crença urgente, quase praticamente um artefato de um poeta maldito, que flecha palavras para se impulsionar ao limite da emoção, com visceral escatologia verborrágica, com a entrega de felicidade amadora de um “carnaval em corpo todo e toda a alma”, em danças “bicha”. “O cuspe virou sangue e a gente ali tomando”, diz-se entre “lembranças do meio do caminho”.

O longa-metragem, em ultra-espontaneidade de diálogos-monólogos, busca pausar o tempo para captar o etéreo (de lenta fragmentação), período-espaço, desnudando máscaras do ser o que se “precisa” ser. É também sobre diferenças e paradoxos das gerações. A mais antiga enxerga “muita juventude” e a mais recente, uma natural fluidez de liberdades, mentais e sexuais. Temos na trama um homem mais maduro tentando entender os jovens e assim resgatar sua própria autonomia sem freios, que, adaptada, mitigou iniciativas, diversões desmedidas e principalmente a soltura do viver “ficando sem pressa de ir”, à moda de uma comuna (que agora subverte a “sobrevivência” por uma vida sustentada por aqueles que criticam – neste podemos inferir “Rasga Coração”, de Jorge Furtado).

“Fim de Festa” conduz seu espectador a imergir na intimidade. Sentir o que as personagens sentem. De Pluto a “ovolacto”. Há aqui o embate entre a ingenuidade (quase infantil e mimada) e a tão temida e desprezada realidade. Entre polícias, drones fofoqueiros, constrangimentos e puritanismos imaturos. É uma análise antropológica comportamental dos jovens, perdidos, desconfortáveis, inconstantes, imediatistas, desconfortáveis, espirituosos, sinceridades “sem papas na língua” e com uma excessiva capa de proteção, principalmente pelas picardias. E “arrogantes demais para aguentar professor inteligente”. Contra eles, os outros e o mundo. Que vê a liberdade como um estágio de permissão totalitária. Há quem diga que é a geração Todynho e do Merthiolate que agora não dói mais. Que “encontra” ideias prontas, como “a Europa que tudo parece normal”. Que ficam com o “carnaval na cabeça” (“Término de carnaval fica essa coisa estranha no ar”), com Podcasts, com o “Brasil que ficou mais pobre” e com F1 com o pai.

Exibido no Festival do Rio 2019, que venceu Melhor Filme, a obra em questão aqui é sobre vidas livres, mas sem o total direito de ir e vir. Paralelo, há a investigação da morte de uma francesa. E nessa parte, sentimos que há uma quebra do equilíbrio. O ritmo perde-se pela percepção mais forçada da encenação. Toda naturalidade sensorial de traduzir o momento exato da vida dissipa-se por aumentar o tom de discursos críticos por personagens conservadores e que “querem ver o Brasil de volta”. Soa falso, ainda que tenha o distribuidor Jean Thomas Bernardini, distribuidor da Imovision no Brasil, como ator, que estreia em grande estilo e sem decepcionar.

“Fim de Festa” pode ser uma ode ao carnaval, a manifestação-diversão mais popular que existe, e que inclusive “atrapalha até o PIB”. Com derrapadas (como a citada acima), o filme segue seu fluxo contínuo de transgressões, definições, duelos de palavras e de vida, intrínseca e primitivamente amadora caseira, atropelada pelos acasos poliamor e tentativas de salvações da pobreza. É “folclórico”, “conivente”, “pós-civilizado” e que “solta purpurina com facada”. Sim, é um típico exemplar pernambucano, ainda que suba a frequência da crítica e descentralize a sutileza “porra-loca” e “despirocada” do se perder nas entranhas da liberdade.

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