Tatuagem

A liberdade reacionária de um cotidiano que apenas é

Por Fabricio Duque

Durante o Festival do Rio 2013

É extremamente compreensível que quando um filme gera o impacto da adoração, necessite-se de um tempo para que as ideias possam ser devidamente absorvidas e contextualizadas, principalmente pelo refrão “tem cu, tem cu, tem cu…” da música de apoio popular que gruda igual chiclete no imaginário do público. “Tatuagem” já se apresenta com status de obra-prima por causa do sucesso que recebe pelos lugares que passa. Este é um exemplo de que é o diretor que faz o filme. Hilton Lacerda destacou-se pelos roteiros de filmes como “Amarelo manga” (2002) e “Febre do rato “(2011), “A festa da menina morta” (2008), “Árido Movie” (2006); co-dirigiu o documentário “Cartola”, mas é com sua estreia na ficção de um longa-metragem que mostra total genialidade em conduzir a conjugação de texto, interpretação, montagem, enfim, os elementos responsáveis pelo equilíbrio fílmico.

O diretor Hiltinho, prolixo e apaixonado, apresentou seu filme em dia de mudança, devido aos protestos de professores no Centro do Rio que impossibilitaram o cinema Odeon. A narrativa busca a epifania visual e a afetação gay para criticar os estereótipos, confrontando o intrínseco do ser e exacerbando o comportamental. Assim, realiza a imersão do espectador ao universo abordado. É o teatro pernambucano da contra-cultura, lugar que artistas experimentais procuram abrigo. Os diálogos debochados, “ogros” (“Peidos poéticos”) e ou sarcásticos (“Dê um minuto de silêncio a sua boca”) soam como poesias da sabedoria popular. É inegável não referenciar a “Priscilla, a Rainha do Deserto” (pelo desdobramento do filho e dos figurinos espalhafatosos”); a “Dzi Croquettes” (pelas “perfomances”); a “Madame Satã” (pela estética visual).

O crítico de cinema Francisco Carbone diz sobre “Tatuagem”: “Livre da sombra do grande amigo Cláudio Assis, a impressão que temos é de que Hilton Lacerda finalmente fala por si, e mostra sua face doce e calorosa, como um beijo que se anseia. Clecio e Fininha nunca se viram, apesar da proximidade de inter relações. Enquanto o segundo passa os dias servindo o quartel como soldado, o primeiro é o líder de uma trupe de artistas mambembes que se apresentam no luxurioso Chão de Estrelas, palco onde tudo pode acontecer. É lá que Lacerda promove o encontro ente seus dois protagonistas, quando Fininha ouve Clecio cantar “Esse cara” (pelo amor de Deus, favor não confundir Caetano Veloso com Roberto Carlos!), e a magia se dá. A música, a dança, a pele, o cheiro, o encontro e a paz. A paixão avassaladora entre um artista contestador e um símbolo da repressão no calor dos anos 70 inflama tela e corpos, em montagem estupenda. Graças a estreia de Jesuíta Barbosa, a presença fulgurante de Rodrigo Garcia e ao talento superlativo de Irandhir Santos (‘O Ator’ do Festival 2013), Lacerda tem nas mãos a argila para fazer um dos filmes mais corajosos e inspiradores da temporada, que bebe nas fontes da liberdade, da coragem e da paixão para contar uma história que está cada vez mais atual e bonita. Afinal, uma história de amor”.

Sim, “Tatuagem” é o cotidiano naturalista, regido pelo incrível ator Irandhir Santos e por seus coadjuvantes (que interpretam pelas sutilezas – como um olhar que diz tudo). Há muitas formas de dar voz à revolução. Alguns tentam ganhar no grito (como “Febre do Rato”), e outros (como o filme em questão aqui) caminham pela técnica perfeita. A liberdade, ser ateu (“Não existe pecado não. É invenção”), a maconha, o espaço coletivo (“Estilosa pobreza de criativa falta”), os shows “reacionários” e ou apenas ser um homossexual no quartel já são indicativos suficientes de discurso político da intolerância ao sistema.

Mas esta tal liberdade sexual (“sem contrato com ninguém”) torna-se hipócrita se o gostar acontecer, gerando ciúmes e “descaramentos”. Convivem com a utopia, a censura, os julgamentos alheios (precisando ser defensivo todo tempo), espetáculos proibidos, enfim, uma vida “imposta” e ou “escolhida” do submundo existencial. O longa-metragem é arte porque não precisa impor a mensagem. É leve, simples, determinada, intuitiva, sentimental, sexual, divertida, intencional, livre, natural e de obrigatório discurso.

Trailer

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