Filhos de Macunaíma

O documento político

Por Vitor Velloso

O novo filme de Miguel Antunes Filho, “Filhos de Macunaíma”, é uma provocação política que se permite existir pela configuração daqueles corpos antes a reestruturação do governo. Seu título surge em meio a oposição estatal à cultura e o nacionalismo tóxico crescente. O longa compreende que seus personagens são forças imagéticas por si só e em um ato de emancipação do dever do cineasta enquanto um documentarista que fosse se inclinar às perguntas, decide observar sem interferência. Tal escolha traz aos personagens uma independência na tela muita bem vinda que situa a obra em um espectro internacional, que vem abarcar o assunto da imigração e do êxodo de maneira latino-americana e não apenas nacional. Os índios que assistimos conquistando espaços em um meio social, ou buscando os mesmos, contornam o preceito dos reacionários, ainda que estejam à margem da sociedade.

O documentário possui diversos capítulos para situar as diferentes estruturas geográficas, econômicas e sociais, partindo do dançarino, que possui uma resistência à alguns padrões culturais, indo ao homem que trabalha em prol de sua comunidade. Todos os arcos possuem o tempo necessário para se desenvolver uma proposta específica de debate acerca daquele tempo e espaço. O arco da mulher que transita entre a Guiana Inglesa e o Brasil, é especialmente delicado, pois sua ausência com os filhos infringe problemáticas ao desenvolvimento deles, mas é a única maneira possível de sustentar a família, além disso a residência onde vivem permanece alagada a maior parte do tempo em período de chuva e não há recursos para uma reforma, o que a força ao garimpo.

O contundente retrato da realidade nacional é uma constatação que a segregação segue perseguindo as minorias com uma força avassaladora, seja no campo econômico, religioso ou político. Aquilo que converge tais narrativas e que dá título ao filme, é uma apresentação de um grupo, em praça pública, onde aquela região de Roraima se faz presente. E essa é uma das belezas do projeto, pois aquilo que o Brasil segrega, a regionalização agrega. A resistência enquanto meio cultural atinge as camadas mais íntimas das discussões que se iniciam a partir do retrato.

Miguel compreende muito bem o que deve ser feito para que sua imagem possua senso crítico para onde se aponta, pois não há imagem que evoque uma postura política. E o diretor possui algumas decisões inusitadas neste campo, realizando um travelling com todos os personagens, enquanto caminham para algum destino específico. São os corpos peregrinos que estão em constante movimento.

Os planos de “Filhos de Macunaíma” possuem uma força única, já que surge como uma anunciação pungente da inserção de todos em outro espaço, o deslocamento que se deve fazer, sempre a pé, para que haja flexibilização em suas vidas. Mas nunca por um incentivo exterior, pelo contrário, é uma caminhada que urge em ir contra a maré. Não à toa, é raro vermos a figura do Estado surgir na tela, a polícia tirando foto das placas de aviso nas casas, é um desses momentos, outro é a Dilma no projeto “Minha casa, minha vida” visitando os moradores. Neste momento, o olhar não torna-se dúbio, já que não se toma partido do quão funcional é a medida, apenas que sua necessidade se faz através da desigualdade histórica. E a visita da presidente ecoa por mais tempo na montagem, pois escutamos os moradores comentando sobre o momento e assim o documentarista deixa claro que a aproximação do Estado, em medidas públicas, é de fundamental importância para a resolução, ou redução, de determinados problemas.

“Filhos de Macunaíma”, participante da Competição Latino-Americana da Mostra Ecofalante de Cinema Ambiental de 2019, não abre perspectivas para o atual momento do país, ainda que seja por uma questão de fim da produção, enxergamos que não há como vislumbrar o fim do contínuo genocídio, seja dos fazendeiros, ou dos engravatados. Não se pode prever políticas públicas de um governo que promete extinguir cada centímetro de quilombola no país, assim, o vigor que estima-se das ações locais, não pode ser diferente do que a comunidade mostrada no filme realiza. Ainda que com problemas estruturais, o medo é uma constante que não se pode mensurar em relatório.

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