Filhos da Periferia

Do passado, presente, futuro

Por Ciro Araujo

Durante o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro 2021

Filhos da Periferia

Brasília é um mundo de anomalias naturalizadas. Uma cidade planejada que não é mais planejada, cresce organicamente mas delimitada. Alguns falam que o sotaque brasiliense é neutro. Que palavra tola e ingênua. Em “Filhos da Periferia”, Arthur Gonzaga interpreta o conceito do periférico – e, com isso, a própria língua e suas variações linguísticas – para abrir uma visão de janelas da vida. Apesar de, no novíssimo cinema brasileiro ao menos, ser uma espécie de gênero próximo ao batido, é um filme que compreende e se assume muito bem, carregado de paralelos.

O cinema de Ceilândia simplesmente cresce. É impressionante, talvez é o que mais represente o Distrito Federal, um território tão ínfimo na área brasileira que chega a ser esquisito que a sétima arte melhor produzida se dê logo em um lugar periférico. Mas existem motivos: o popular está sendo representado. A região administrativa é o local mais populoso do distrito. Quando o espelho cinematográfico reflete, isto é, um se vê através da tela, o espectador se reconhece. “Filhos da Periferia” entrega não só esta visão como consegue analisar perfeitamente o sotaque, as variações, o rotineiro. Ou seja, essa tal de janela da vida. Um cotidiano aberto, que é tendência nos curta-metragens. Arthur Gonzaga presenteia com a naturalidade do que é quase não-natural. Brasília é candanga, pois bem, recebe influências do seu redor, todas apontadas ao centro do país. Ironicamente quem mais adapta a língua são os periféricos. Nelson Pereira dos Santos filmou uma vez um curta, interessantíssimo. “Fala, Brasília!”. É estranhamente cômico e empolgante ver o quanto essa artificialidade afeta o popular.

E então o cineasta faz sua filmagem. Passa por um momento coming of age, que não possuem pontos finais. Aquela coisa, bem como a vida é. A espécie do teatro é montada a partir disso. São personagens que não necessariamente explicitam violência por estarem associado à periferia. Inclusive, chega a ser uma demanda existirem personagens que não intrinsecamente perigosos por estarem associados ao crime. Que por sinal, é uma palavra que nem um pouco cabe aqui, é pura realidade e chega a ser oportunidade. Ao seu final, pequenas palavras pichadas, um aviso. Roubou quem é da quebrada, morreu. Ninguém precisa nem se dar ao luxo de citar a polícia, certo?

Trailer

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