Fé e Fúria

O poder da fé

Por Vitor Velloso

Durante o Festival do Rio 2019

A intolerância religiosa é uma manifestação milenar de um problema do ser humano em aceitar as diferenças das crenças que o cerca, indo muito além da fé, o preconceito atinge diretamente uma questão social, já que diversas religiões são parte de uma cultura étnica. “Fé e Fúria” de Marcos Pimentel é um documentário que irá falar dessas duas faces do tema, com uma clara, e necessária, inclinação às religiões de matriz africana, por tratar de uma complexidade maior.

Em qualquer momento em que se fala de fé e religião, o terreno é hostil e reativo, pois trata-se de algo muito maior que o sujeito em si, mas Marcos consegue transitar entre as diferentes visões de mundo sem desrespeitar nenhuma, já que não lança discurso (oral) sobre que o filma, apenas organiza de maneira dialética tudo que é falado, para que o debate seja protagonizado e executado por quem tem a autoridade em determinado assunto. Assim, reforça um caráter direto, mas consegue ser permissivo em não intervir nas fala s, onde as experiências vão se somando, sem recorrer a estereótipos comuns que são divulgados (ainda que alguns se encaixem). O mais belo do longa é ser honesto em concretizar que a “guerra espiritual” proclamada por alguns é de uma fragilidade tamanha do ponto de vista humanístico, pois é travada apenas de um dos lados da história.

Enquanto o diabo é desferido pelos quatro cantos da ignorância militante, as religiões de matriz africana buscam apenas seus espaços em meio urbano, que são constantemente destruídos por fanáticos e pelo poder paralelo, enquanto o Estado mantém sua proteção constante àqueles que possuem isenção de imposto e estão presentes na mais alta esfera do poder Executivo.

Interessante notar que um dos personagens evangélicos presentes no filme, está o tempo inteiro defendendo a liberdade das outras religiões, já que ele mesmo sofre preconceito por suas tatuagens, piercings e estilo de vida. Essa demonstração é importante para ressaltar que não pode haver um pragmatismo canhestro de rotular qualquer pessoa, apenas por fazer parte de uma instituição com sérios problemas de aceitação ao próximo.

Ao mesmo tempo, “Fé e Fúria” é falho em costurar algumas de suas boas intenções, como o debate acerca da fé dos traficantes. A introdução do tema é pouco sólida, já que se inicia no discurso de como a fé foi introduzida nas favelas, não apenas de maneira prática, mas também estética, partindo de um preconceito geral, em seguida vemos parte dos traficantes comentando sobre a permissão que dão para qualquer pessoa que os trate bem. Ainda que a condição da contradição seja interessante, a conexão é feita às pressas.

Os títulos que surgem na tela, para seccionar cada capítulo do documentário são pouco esclarecedores, além de não serem necessários para a construção que o filme pretende. Acaba quebrando o ritmo da projeção e dá um tom episódico ao projeto, que não se justifica. Além disso, determinados entrevistados somem ao longo de “Fé e Fúria”, mas com discursos e histórias que agregam drasticamente no processo. Enquanto outros que repetem incessantemente a mesma coisa, mudando apenas a construção das frases, são mantidos do início ao fim, enfraquecendo toda a narrativa que está sendo montada diante do espectador, consequentemente parte do discurso político ali presente.

“Fé e Fúria” é um retrato contundente da realidade de intolerância religiosa presente no Brasil contemporâneo, mas acaba caindo em pequenas armadilhas formais que mantém uma postura rígida diante de uma politização dos realizadores. Acaba que vemos a visão do diretor apenas na montagem e nos créditos finais, retirando um pouco de personalidade do projeto. E os “capítulos” parecem creditar à discussão uma forma que sacramenta aqueles discursos em escrita, parecendo emular uma bíblia.

E ao final, se perde em buscar uma reconciliação em falas comuns, uma falta de posicionamento geral, que ele parece buscar, que não dá respostas e retorna ao ponto zero.

Tornando a estagnar o debate e se retirando de possibilidades futuras de verve acerca da temática. Logo, não acrescenta grandes pontos, ainda que não retira, mas é importante por buscar criar essa tensão e acaba compreendendo um problema que vai além do espiritual, mas se traduz na política e no social.


COMO ASSISTIR AOS FILMES DA 20ª MOSTRA CURTA CIRCUITO:

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