Faz Sol Lá Sim

O Brasil Regional Filarmônico

Por Vitor Velloso

“Faz Sol Lá Sim” de Claufe Rodrigues é um documentário que caminha na institucionalização da cultura brasileira enquanto forma cinematográfica. Está claro aqui que há uma ironia quanto à expressão, porém a ideia primordial de obras que caminham ao tom expositivo, utilizando-se de drones e pirotecnias de linguagem para buscar uma composição diferente do pragmatismo convencional, é sempre estar tornando a didática o exercício televisivo já disseminado. 

Os pontos mais fortes da obra estão diretamente ligados aos seus meandros da realidade, é como a cultura é capaz de construir uma base tão sólida para a sociedade, que a História se torna um organismo oral e material diante do contemporâneo. As vidas vão se somando em torno de um mesmo objetivo. É um processo de embate direto ao capitalismo dependente e organicidade tacanha que é promulgada. Ainda que haja falhas no processo de categorização das filarmônicas, que na contramão da sinopse oficial, possuem uma rixa histórica drástica. Aqui, vemos como esses grupos se formaram, seus objetivos e parte da ideologia incrustada nesse processo. Pois como parte de uma regionalização cultural, difere do restante do país, ainda que carregue consigo um tomo de sua materialidade.

Aqui, se torna claro que há participação efetiva da militarização do povo brasileiro, mas tal como no esporte, questões que são necessárias para a manutenção da cultura no país. Ainda que uma reforma de base seja objetivo primordial em uma possível reestruturação do país, é necessário que determinados méritos sejam reconhecidos. A própria formulação das influências culturais, sociais, econômicas e políticas que um movimento como este, de múltiplas bandas em uma cidade, deve ser compreendida para além da obviedade de seus méritos, mas deve haver um olhar crítico para a verdadeira representação que isto promove. Mas “Faz Sol Lá Sim” recorre sempre ao pragmatismo da observação, da constatação e dos recursos expositivos aqui disponíveis. 

Outrora, tais perspectivas simbólicas, recebiam uma alcunha grave no meio de produção brasileiro, com a aproximação da televisão com esse jornalismo cinematográfico, há décadas, os projetos passaram a receber uma atenção mais eminente. E o filme de Claufe conseguiu alguma notoriedade nos lançamentos brasileiros, por refletir parte dessa transa de linguagens, já que orienta seu encaminhamento à essa verbalização constante, onde a unidade se dá em entrevistas, uma multiplicidade de histórias, uma tentativa de retomada de um retrato geográfico, além do conflito entre gerações. O aspecto é fundamental para compreendermos alguns acertos que ocorrem aqui, pois a dualidade que permeia essas décadas de diferença na idade de seus entrevistados, torna-se motor para a negociação entre os tempos. Não à toa, toda uma questão de tradicionalidade vira a base para determinadas argumentações dos músicos. Sempre retratando-se à outro período e como as “crianças” vão se desenvolver nas bandas musicais. 

Toda essa reverência à exposição, rende uma construção prática de seus acontecimentos, mas não sustenta de maneira sólida o ritmo do documentário. Com o passar do tempo, o espectador se vê distraído em meio aos paralelismos criados, à questão regional e à materialidade de todo o processo que envolve tais bandas. Mas tais questões surgem através de uma falha imediata em como relacionar tantas vertentes diferentes em um mesmo filme. A montagem vai se perdendo por excesso de apego à determinadas situações e uma possível discussão  ali proposta, se torna uma das veias de tédio que vão assumindo a frente. E isso vai criando um problema imediato para o encaminhamento do interesse de quem assiste, pois esses devaneios na estrutura acabam comprometendo o verdadeiro objetivo. 

“Faz Sol Lá Sim” é uma obra que busca uma representação regional de Brasil, não mede muitos esforços para conceber sua visão acerca do didatismo mimético televisivo, mas provoca algumas boas histórias orais com suas entrevistas. O imaginário cultural brasileiro se apresenta a partir da densidade que suas particularidades possuem, a cidade de Marechal Deodoro, em Alagoas, possui uma História complexa e diversa em suas produções. Logo, esse grau de exposição vem com um custo, mas permite um mosaico multifacetado dos brasileiros e das instituições, sejam lá quais forem. E a fala é direcionada à todos os campos que estão aqui presentes. Rivalidade só no passado….Ou não?

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