Fala Tu

Retrato de um movimento quando jovem

Por Vitor Velloso

Filme Filme

Síndrome política no debate público, “o rap é para quem?”. Macarrão, um dos personagens de “Fala Tu” diz que não se importa com a compreensão dos playboys da zona sul, nem com o dinheiro da “indústria”, sua verdadeira preocupação está no morro. Bom, outra resposta encontramos de BK em “O céu é o limite“, onde ele diz: “O rap é pra geral, pretos, brancos, ricos, pobres. Ok, mas nós sabe qual lado que morre.”

As duas falas conseguem localizar o espectador acerca da importância da produção musical, para o âmbito social e político dessas vozes periféricas que são caladas ao som do fuzil. “Eu faço uma oração para uma santa protetora.
Mas sou interrompido a tiros de metralhadora”, Cidinho e Doca em Rap da Felicidade. “Parei pra respirar por um instante. Mas quando olhei pro céu só vi os tiros de traçante. Pensei meu Deus, quem dera fossem as estrelas cadentes. Que o sangue que escorresse não fosse de um inocente. Seria o bastante” Lord em Favela Vive 3.

Quem melhor para debater as problemáticas do rap, que os próprios compositores/poetas/sociólogos? Ninguém.

Com direção de Guilherme Coelho e Nathaniel Leclery, “Fala Tu” é um documentário que compreende a necessidade de formular sua estrutura em torno da dialética entre a forma e o discurso apresentado, ou seja, não possui o ímpeto de se debater além de seus entrevistados, apenas organiza,de maneira a confrontar a oralidade. As falas acerca das vivências ali expostas, estão localizadas, em sua maioria, na Zona Norte do Rio. O que torna-se importante para que possamos compreender que os deslocamentos pela cidade é tortuoso e revela a fragilidade da inclusão e a força brutal da exclusão cultural ali imposta (Como morador da Zona Norte do Rio, posso afirmar) .

Os personagens falam da compreensão da vida, da exclusão, do reconhecimento no morro, das dificuldades etc. Em um determinado momento um dos personagens centrais pede aos bandidos que não roubem o pobre trabalhador que não possui bens (sua esposa foi assaltada levando os materiais de trabalho da empresa onde presta serviço) e que se for fazer, faça na Zona Sul onde propriedade não é um problema generalizado. A fala do homem revela a desigualdade da “cidade maravilhosa” e por tabela expõe a ferida que construiu o Brasil e toda a América Latina. O operário é alvo em todas as instâncias da sociedade e é quem sofre na organização do meio capitalista que nos consome.

É aí que vemos um dos pontos da dialética apresentada pelo filme, não se resume tudo a discussão histórica e didática da parábola ali apresentada, não é dado a permissão de falar, mas sim filma-se o candidato à violência constante e a necessidade de voz. Ou seja, o longa não se propõe debater números e dados, parte para o empírico e a vivência constante dessa realidade opressora, do capital dependente, que é revelado conforme os depoimentos surgem na tela. O monumento de disparidades sociais que surge na tela não vem a partir de uma vontade do diretor de filmar, mas de conceber a realidade através de sua objetiva, o discurso é dado por quem é filmado e não sofre interferência da obra. Essa questão é de suma importância para que o filme consiga atingir um grau de concepção da antropologia que é projetada na tela, pois as breves perguntas que o espectador escuta vir do diretor, são capazes de revelar a fragilidade do material fílmico enquanto obra “bem feita e/ou arquitetada” o que é próprio da cinematografia brasileira politicamente e socialmente engajada, que se encontra, em grande parte, marginalizada dos eixos de produção convencionais.

“Fala Tu” é uma obra de suma importância na história do cinema brasileiro, pois se coloca em uma espécie de vanguarda que reconhece no movimento um futuro de debate sociológico, através do ritmo e da poesia, as discussões que permeiam o Brasil, ainda que utilize o Rio como palco de suas filmagens. Consegue realizar de maneira direta o projeto de exceção social em meio à padronização do cinema. O cinema brasileiro que vêm sendo massacrado pelo Estado e pela mídia ultimamente, nos dá mais uma demonstração de força através das telas, dessa vez da tela em casa, na segurança de nossos lares. A Filme Filme é um projeto único que deveria receber mais atenção.

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