Eu, Sidarta

A jornada do despertar (de verdade)

Por Fabricio Duque

Não é de hoje que o ser humano busca a liberdade transcendental. De se libertar do próprio eu a fim de conseguir a essência da existência. Fruto de uma viagem a Índia em 1911, o escritor Hermann Hesse publicou, onze anos depois, “Sidarta”, um espírito rebelde, que seguiu os ensinamentos-tradições de Siddhartha Gautama, o Buda, mantendo-se fiel a sua própria alma e com o “método de se separar do eu”.

Se o livro é o destrave das limitação (de fora para dentro) e uma orgânica expansão da mente, no curta-metragem “Eu, Sidarta”, de Walter Daguerre, a “batalha” é de dentro para fora. De reintegração à sociedade. De aceitar as especificidades de cada indivíduo. A câmera, cotidiana, percorre pela cidade à procura de algo. E ao mesmo tempo que observa, com narração neutralizante, também processa a inclusão. Quase transmutada. Quase metafísica. O protagonista (interpretado por Danilo Moraes – que também montou o filme) está em análise, expondo aparências alheias e sua própria. “Tornar-se vazio de sede, de desejos, de sonhos, de alegria e de  pesar. Exterminar-se, distanciando-se de si mesmo.”

“Eu, Sidarta” navega no cinema direto e desconstruído, não rígido e formal, de realidade amadora, cru e de vida pulsante. São cenários que modernizam a experiência do século passado, quando se dividem em capítulos da primeira parte do livro inspirado: O Filho do Brâmane; Com os Samanas; Gotama; e O Despertar. Aqui, há o renascimento do amor. “Todos amavam Sidarta, a todos causava alegrias. Para todos era fonte de prazer”. Mas “abrigava em suas entranhas o descontentamento. Alma inquieta. O Coração não se sentia saciado”. É a jornada do conhecimento com ou sem “desilusões”. Com ou sem cosmos “umbilicais”. Fugindo ou não de “mim mesmo”. Com ou sem “rastreamentos logísticos”.

A música indiana (trilha original composta pelo próprio diretor), as árvores, estudantes da PUC no Rio de Janeiro, as bibliotecas, os bares, as festas, os ônibus, as lojas, as bancas de revistas de homens e mulheres “perfeitos”, o estímulo ao consumismo desenfreado, as ruas, as praias, o cinema, a locadora Cavideo (e os filmes selecionados), uma filmagem acontecendo, a vida acontecendo na mais pura espontaneidade não pensada. Quase robótica. “Tudo era mentira. Tudo fedor. Tudo recendia falsidade e criava a ilusão de significado, felicidade, beleza, e toda vida não passava de putrefação oculta. Amargo era o sabor do mundo. A vida era um tormento.”

“Eu, Sidarta” é também uma percurso “iluminado” pelos realizadores da sétima arte (“Não duvido que és o Buda”), entre eles François Truffaut, Federico Fellini, Orson Welles, Alfred Hitchcock, Glauber Rocha. “Ninguém chega à redenção mediante a doutrina. Ei de prosseguir na minha peregrinação. Para me separar de qualquer doutrina e mestres, a fim de que possa alcançar sozinho meu destino.”

Nosso protagonista “desperta” e “olha o mundo como se o enxergasse pela primeira vez”, após tanto tempo vivendo na própria Caverna. Um Platão. Assim como “Litania da Velha”, de Frederico Machado, “Eu, Sidarta” ganha sua força e potência na narração, uma simbiose. Um início. E Walter Daguerre (de “Paraíso Aqui Vou Eu”, co-dirigido com Cavi Borges), com liberdade narrativa, consegue construir em quinze minutos uma ode transcendental à essência do ser humano. Que se desconecta para despertar. E aprender a separar o que se é. Sem ilusões e barulhos para afastar o silêncio-medo do reencontro.

 

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