Eu Não Sou Seu Negro

A história e os EUA

Por Vitor Velloso

Dirigido por Raoul Peck, “Eu não sou seu negro” busca através de escritos de James Baldwin e da narração de Samuel L. Jackson, uma representação crítica da verdadeira história norte-americana. Ou seja, traz à tona a concretude dos fatos acerca da opressão étnica que os EUA mergulhou durante toda sua construção. A própria expressão “à tona”, demonstra toda uma necessidade imediata de pedagogia da realidade, ou seja transmitir aquilo que é absolutamente óbvio, a segregação saiu da legislação, mas não das instituições, familiares, empresariais, da sociedade e do aparato público que deveria proteger o cidadão norte-americano, o que leva a compreensão absolutamente óbvia da dissolução da figura negra como não-cidadão.

O documentário constrói de maneira objetiva sua narrativa através do texto de Baldwin, indo nos meandros das relações históricas da sociedade. Quando constrói diretamente a forma com sua perspectiva histórica e propriamente realizada na montagem dos arquivos, redimensiona, temporalmente, a própria discussão que é retomada ali, reverberando através dos anos sua própria consciência e suas modificações, tendo nessas últimas, um dado único e exclusivo do espectador, pois não cria vínculos imediatos com a contemporaneidade.

Essa é uma das maiores forças de “Eu não sou seu negro”: manter-se imageticamente no passado, conectando o presente com a narração de Samuel enquanto costura as linhas temporais com a questão que nunca foi extinguida da sociedade norte-americana. Criando uma correlação muito profícua desses momentos, entendendo na própria forma essa capilarização dos fatos, seu público.

Se por um lado falar de “Eu não sou seu negro” tornou-se uma necessidade de memória e debate da realidade, o mesmo expõe os problemas da história da opressão na cultura. Um filme de 2016, ter de retornar ao foco, por conta de um novo caso de assassinato do corpo negro no EUA. É lógico, que comparações não devem ser feitas à esmo, mas se essa movimentação fosse realizada no Brasil, o país e o cinema seriam melhores, isso é uma garantia.

Raoul Peck é hábil em conceber as estruturas em uma organização bastante peculiar, reconhecendo os momentos exatos para se introduzir alguma discussão nova em meio ao turbilhão histórico norte-americano. Constrói a partir dos escritos de Baldwin, mas compreende seu material em cronologia bastante didática, que somada à interpretação de Samuel L. Jackson, temos um depoimento vívido do escritor, que salta à tela e parece nos cobrar o posicionamento crítico do mundo. E este movimento de retorno, não necessariamente às origens, isso o cinema brasileiro faz muito bem, mas o retorno ao front de batalha eterno, é um gesto que o autor realizou e que deve ser compreendido também pelas personalidades contemporâneas. Cada uma em seu tempo.

Não trata-se de uma politização instantânea do mundo, mas uma necessidade de ícones que sirvam como bastiões, pilares, de uma estrutura de esperança em meio ao caos. Ora, as pessoas estão procurando no que se agarrar, mas todo esse esforço parece ser em vão, pois para além de uma pandemia, a história se repete em mortes e mais mortes. O anjo da morte está sempre à espera dos oprimidos, em cada esquina, em cada rua. A farda contra a pele negra é um conto de ódio anacrônico, que no Brasil encontra uma vítima jovem a cada 23 minutos. Essas necessidades de fala, não deveriam ser resgatadas através da cinematografia norte-americana, mas sim da nossa. E para a nossa sorte, há muitas movimentações nesse sentido, nessa tentativa de reconstruir a história, colorindo ela.

“Eu não sou seu negro” é um documentário rígido em sua forma, mas que consegue transmitir as necessidades históricas e historiográficas do EUA, do povo negro e de como essa intercessão é excluída pela mídia, pela cultura, pelo entretenimento e pelo povo. Charlottesville é um reflexo de como o ódio é como o fascismo, está sempre no cio, só é preciso que haja um pequeno choque. Por menor que seja, uma reação se inicia. Estamos vendo isso pelo mundo, Europa, EUA etc. Supremacistas brancos retomando os noticiários, pois acreditam estar usufruindo de sua “liberdade de expressão”.

Para os mesmos, o desejo jamais será positivo, não valem a mordaça que colocam no próprio cachorro. – Autor de “Cinema de Rotação” ao assistir à manifestação.

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