Anuncio zazie

Eu, Leonardo

Da Vinci for dummies

Por Pedro Mesquita

Durante o Festival Festa do Cinema Italiano 2022

Eu, Leonardo

A figura de Leonardo da Vinci constituiu-se, ao longo dos anos, numa espécie de símbolo do Renascimento e da Modernidade — afinal, que outro inventor da época representa tão bem esse período em que o homem buscou interpretar as leis naturais e instrumentalizá-las à sua vontade que o autor da Mona Lisa e d’A Última Ceia? A sua fama, que perdura até os dias de hoje, garante que não cessem de ser produzidas obras artísticas tratando de sua vida e seu legado. O que traz, evidentemente, um certo problema de ordem estética: como representar essa figura mítica, da qual não temos sequer registros fotográficos?

O que “Eu, Leonardo” faz — anunciando-o em suas cartelas iniciais — é recorrer aos registros escritos, retirando os seus diálogos das próprias obras de Leonardo da Vinci. A ideia do filme de Jesus Garces Lambert parece ser, então, a de preservar uma certa verossimilhança na composição de sua personagem principal; uma verossimilhança que não se dá pela aparência, mas pela essência; pelas ideias do homem em estado puro.

Essa descrição, infelizmente, parece excessivamente elogiosa ao filme. Não tratamos aqui de uma obra ambiciosa, como é por exemplo o filme de Jean-Marie Straub e Danielle Huillet, “Crônica de Anna Magdalena Bach” (1968). Este sim levou a cabo o difícil objetivo de restituir o homem através do seu trabalho: no filme do casal Straub/Huillet, a impossibilidade de representar diretamente, fisicamente, o seu personagem principal (o compositor barroco Johann Sebastian Bach) dá lugar a uma representação espiritual, por meio da qual a exibição das suas obras, das suas partituras, das suas cartas, nos revela a vida daquele homem. Já em “Eu, Leonardo” não existe mistério, não existe essa ausência que convoca a imaginação do espectador para compor a personagem; pelo contrário: aqui, Leonardo da Vinci é encarnado por meio do ator Luca Argentero. A atuação, diga-se de passagem, é péssima, pois não consegue escapar da tentação de exagerar tautologicamente tudo o que já se encontra nos diálogos. 

Para completar a série de infortúnios, a encenação expressionista do filme na qual o diretor investe torna tudo ainda mais óbvio e redundante: frequentemente, Lambert lança mão de animações que desejam ilustrar o processo mental de Leonardo da Vinci; em outros momentos, quando a personagem se encontra numa espécie de encruzilhada espiritual, os cenários digitais reforçam isso, sempre da maneira mais cafona possível, com ambientes turvos e sinistros. Cafona, aliás, é uma palavra apta para descrever a sensação que nos toma toda vez que o filme ambiciona dizer algo de poético: as imagens da natureza — que parecem advindas de bancos de imagem royalty-free — ornadas por uma trilha sonora pretensamente sentimental são particularmente vergonhosas.

Se todo filme se dá numa negociação entre o que é mostrado e o que não é mostrado, “Eu, Leonardo” pende excessivamente para o primeiro lado. A priori, nada de errado nisso. Mas sob as condições citadas acima, o resultado é um filme que tanto preza pelo didatismo que este acaba se transformando em rebaixamento intelectual; que acaba tratando o seu espectador como um idiota. Afinal, o problema não é “mostrar tudo”, mas explicar tudo, garantir que não exista um evento do filme que não tenha a sua significação escancarada por outro. Um claro exemplo disso são as cenas em que as pinturas de Leonardo da Vinci são analisadas pelo narrador, nas quais a montagem vai recortando o quadro nos mínimos pedaços e a voz em off vai explicando os gestos das personagens, as intenções por trás de cada decisão tomada pelo pintor… é como se o diretor não acreditasse na potência e na beleza daquelas imagens em si mesmas, sentindo-se assim compelido a acrescentar-lhes algo que torna certa a compreensão por parte do espectador. Mas assim como toda piada, quando explicada, perde a graça, “Eu, Leonardo” consegue tirar a graça até mesmo de algumas das mais belas obras de arte do mundo.

O que fica, portanto, ao final da sessão, é a certeza de que o filme de Lambert não faz jus a seu personagem principal, às suas obras e nem mesmo ao período moderno que ele busca retratar, pois todas as suas estratégias baratas de encenação são um insulto ao intelecto ao espectador. “Eu, Leonardo” é um filme educativo, no sentido mais rasteiro possível da expressão; talvez, portanto, ele encontre o seu devido lugar nas salas de aula, em sessões de cinema promovidas por professores de história que desejam ilustrar o conteúdo das aulas sobre o Renascimento (coitados dos alunos…). Neste caso, a sua existência é até compreensível. Por outro lado, a sua presença num festival de cinema — onde, ao menos em tese, deveríamos encontrar coisa melhor — é injustificável.

1 Nota do Crítico 5 1

Trailer

Banner Vertentes Anuncio

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.