Eu Estava Em Casa, mas…

Um retrato das relações

Por Vitor Velloso

“Eu Estava Em Casa, mas…” de Angela Schanelec é um barato diferente dos demais filmes que chegam à janela brasileira. Seu tempo arrastado pode ser um obstáculo para parte do público, mas o que a cineasta vem mostrando ao longo dos anos não é muito diferente do novo projeto apresentado e a recepção da crítica mostra um gosto particular que deveria ser comentado nos autos de nosso tempo. 

O gosto particular que foi atribuído à parte da crítica cinematográfica brasileira é parcialmente honesto quando vemos que o criacionismo e o esteticismo mais estoico se aproxima do agrado dos autores. De certa forma, vemos uma repetição de ciclo ocorrer com as bases imagéticas. Sem distorcer a padronização do mercado internacional, o quadro passou a ser reformulado em textos como uma espécie de composição harmônica da situação ali apresentada, ou seja, temos a recorrência dos estruturalismos diversos encontrando as bases materiais de sua produção a partir de um ótica onde a resolução do plano é dada como uma mera exposição narrativa que deve ser compreendida nela mesma. Na prática, o espaço e o tempo de grande parte do cinema europeu que chega ao Brasil se resume a essa assimilação que se opõe à fragmentação de outrora. 

Esse protótipo de resposta aos resquícios do modernismo na cinematografia contemporânea pode ser compreendido de duas maneiras distintas: a cadência desse tempo para uma abordagem que controla e dinamiza o espaço a partir de uma narrativa que se encontra entre a realidade fílmica e um campo da ficção que se expõe na ideia por trás de algo. Ou, particularmente, na inocuidade de um conservadorismo que expande a projeção a fim de encontrar o próprio objetivo em meios aos dispositivos utilizados pelo grande mercado internacional. “Eu Estava Em Casa, mas…”  é um misto desses dois pensamentos, sem distanciar-se muito da ideia que a arthouse pregou e acabou pegando parte da curadoria. 

O longa funciona entre suas questões dramáticas e os distanciamentos da própria tela, encontrando espaço para criar uma dimensão distinta da que seu próprio material apresenta. É o cinema europeu bebendo de nosso realismo fantástico latino-americano com o vigor de outros tempos, onde a indústria independente do “velho continente” reencontrou as bases de quem trata a identidade a partir da diferença. Onde o vício que o Cinema Romeno nos apresentou no prosaico, há a recorrência dessa “metáfora” que encontra a matéria do natural. A fragilização da forma, para uma estrutura que se compreenda a partir dos eixos que a projetam. O leitor pode delirar ao acreditar que trata-se de um formalismo que recorre à uma misancene que concebe o espaço-tempo em um fluxo da própria obra (em moldes que conhecemos bem na cinematografia brasileira), porém, “Eu Estava Em Casa, Mas…” é de maniqueísmo truculento, onde parte de sua narrativa acontece no que a objetiva não alcança, ou seja, funciona em torno de um interesse por uma trama que só trabalha por um rigor formal que enquadra a prosa para alcançar a poesia no extra-filme. É uma espécie de reverência primitiva ao longa de Robert Bresson,  “A Grande Testemunha”, mas que não consegue encontrar o próprio tom durante sua projeção.

Se anteriormente esse totem de primazia da representação se encontrava nessa materialidade vívida na tela, agora se apresenta como estatelamento do próprio movimento para um composição estóica que fomenta a mercantilização da própria imagem. É o conteúdo usurpador que marca boa parte da história da Europa, sintetizada nesse propósito formulesco de uma “arthouse”, com os maniqueísmos do quadro e a resolução conservadora das problemáticas levantadas pelo cinema latino-americano. “Eu Estava Em Casa, Mas…” é uma negociação internacional desse esteticismo que tanto encanta o olhar de uma parcela de críticos, inclinados à exposição de um rigor e ao fatalismo dramático como questão último para os dramas ali apresentados, nada mais “prosaico” que o niilismo de uma dependência fajuta e concebida nos escombros de nossa referência. Talvez os devaneios filosóficos consigam encantar o alto dos verticais aqui presentes. 

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