Eu Ando Sobre a Água

Fora do cartão-postal

Por Vitor Velloso

Durante a Mostra CineBH 2021

“Eu ando sobre a água”, de Khalik Allah, é um documentário que funciona em duas frentes diferentes, a primeira se fixa na materialidade de seus relatos, a segunda é construída na poética espiritual de Khalik. Um dos maiores méritos do filme é conseguir conciliar as duas abordagens sem perder de vista suas complementações. Existem sequências verdadeiramente belas aqui, que enchem os olhos e revelam uma compreensão do material que vai além do registro da realidade violenta. Por essa razão, é possível falar que a pessoalidade transmitida durante a projeção, não caminha com um “lirismo”, mas se utiliza dele para engatilhar memórias e depoimentos em meio ao caos urbano, a violência, o descaso do Estado, a pobreza e uma amizade que permite sonhos.

A longa duração do filme é facilmente sentida, não há como negar, e o grau de encantamento com algumas cenas não se mantém até o último minuto. Depois de certo momento, o espectador percebe que essa profundidade poética está ancorada em um estilo próprio que passa a pesar no ritmo. Existe um certo esgotamento formal nas mais de três horas de duração e o fim da projeção nunca parece próximo. “Eu ando sobre a água” consegue fazer funcionar duas perspectivas tão distintas em uma nota só que em determinado ponto, já não compreendemos a beleza da realidade construída, apenas sua violência infindável. Isso é particularmente louvável quando esses registros cotidianos, costurados pela câmera lenta e por uma curiosidade prosaica, passam a reforçar um ambiente culturalmente rico que não se encontra nas telas, nas fotografias e nas representações norte-americanas. É o que chamei algumas vezes de “cartão-postal Hollywoodiano”, a projeção de um padrão de vida para ser comercializado mundo afora.

De toda forma, quando Khalik Allah decide por uma perspectiva que privilegia os seres humanos de suas memórias e registros, sem necessariamente propor um debate, mas criar uma obra que possa refletir sobre a realidade a partir de um recorte de seus momentos. Trabalhando de maneira flexível, a montagem vai dinamizando essas imagens que assumem a todo momento que há uma distanciação das vozes em off, do que estamos vendo na tela. É algo fragmentado que não se torna desconexo, pois a consciência é trabalhada pelas histórias orais que se amontoam sem uma narrativa ou noção de fim, estando sempre em movimento, em constante expansão. Existe aqui uma dialética da violência e da poética que não se permite cair nas amarras que romantizam as precariedades, trata-se de uma suspensão prática, que pode vir a pavimentar alguns ataques à obra, acusando-a de uma intencionalidade turva ou ambígua. Particularmente, há uma certa confusão em atribuir alguma categoria próxima a essa aqui, pois “Eu ando sobre a água” se distancia tanto de uma abordagem expositiva que se alguém procurar sintetizar essa experiência à mera dissolução da realidade ou fetichismo da pobreza e violência, vai estar forçando uma interpretação.

Existem espaços que nunca são preenchidos durante a projeção, lugares inacessíveis e fragmentações que fogem à capacidade do espectador. Mas é essa provocação de manter-se na matéria enquanto permite a forma cinematográfica descolar do conteúdo real, que faz a coisa toda ser bela. Pois não é uma fuga, é uma maneira de olhar, de encontrar o sonho e tentar fazer com que as expressividades já expostas na tela, sejam “ressignificadas”. Talvez algum incômodo imediato por parte do público esteja na explícita ampliação dos dispositivos ao campo visual, ou seja, a saturação das interferências formais na obra e uma clara tomada de posição estética e política diante do material. Não é distinto das demais obras, apenas faz com mais intensidade. Não há possibilidade de crermos em uma imagem desprovida de consciência política ou ideologia consensual, Khalik só exacerba a noção.

“Eu ando sobre a água” é uma experiência espiritual, brutal, lúdica, política, lenta, dinâmica e paradoxal. É uma obra que encontra um campo de atuação que não se apega no inconsciente mas parte dele, e por isso, é um barato sensitivo acima do racional, sem que caia no clichê de “se deixar levar”. Em uma entrevista concedida à Mubi, o diretor deixa claro que não planejou a obra, mas sentia que “algo estava sendo mostrado à ele”, esses impulsos podem ser transcendentais, mas ele vêm de um lugar mais interior. Algumas belezas aqui são realmente incomparáveis.

Trailer

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