Estilhaços

Retrato particular do assombro

Por Vitor Velloso

Durante o Olhar de Cinema 2021

“Estilhaços” expõe uma história pouco conhecida e bastante característica de parte da América Latina. Com um material especificamente único e fico, o documentário de Natalia Garayalde é capaz de apresentar a história da explosão de uma fábrica militar em Córdoba. As imagens de destruição e desespero são gravadas pela própria cineasta, ainda criança na década de 90. Os registros são contextualizados brevemente pelo filme, com falas de Garayalde, que faz uma espécie de apresentação daquilo que está exterior à objetiva.

De certa forma, é um prato cheio para que possamos pensar as condições políticas e econômicas da dependência latina, afinal o próprio longa relata para onde os armamentos eram exportados. Ainda assim, a obra assume a estrutura relativamente comum de outros projetos com materiais pessoais, as falas que contextualizam um certo estado de espírito no momento e atravessam a projeção para que o espectador possa se aproximar da forma subjetiva. É um prato cheio para quem procura escrever em torno de filosofias estruturalistas de “imagens, movimentos e suas ressignificações”, pois quanto mais progredimos, mais as coisas mergulham na ideia de “imagens que sobrevivem aos corpos”. “Estilhaços” possui um potencial enorme, mas se perde no caráter diletante de um processo que sempre termina em uma interiorização particularmente superficial. Em diversos níveis distintos, esta vem sendo uma característica de algumas produções documentais latino-americanas (tomando de empréstimo uma formalidade discursiva dos europeus), Petra Costa talvez um dos exemplos mais midiáticos no caso brasileiro. Ou poderíamos citar inúmeros outros filmes que possuem passaporte livre nos festivais do sul global, de “Não Haverá Mais Noite” à “Canções Engarrafadas 1-4”.

Está claro que parte da pessoalidade, ou impessoalidade (em especial nos casos franceses), se diferem nas particularidades. Mas o rigor estrutural mantém-se a partir da relutância da própria matéria, ou da crença que essa “materialização” vem na ordem do discurso, uma espécie de tentativa de racionalizar as imagens para além dos eventos, conflitos e das relações políticas, produtivas e suas “representações”. Foi o que mais vimos durante os debates da CineBH. É uma chaga que engessa o debate da realidade para creditar à necessidade moral, em vinte e quatro frames por segundo, à um aspecto do próprio cinema enquanto projeção de uma realidade ou do “recorte”, “olhar”, “perene”. Infelizmente “Estilhaços” se perde no beco sem saída que secciona o debate formal, buscando o indivíduo em sobreposição ao coletivo. É o reflexo de um esgotamento emocional. Terapia subdesenvolvida sobre a decadência formal cinematográfica de indivíduos e suas memórias.

Por mais que o espectador se espante com algumas revelações e imagens do documentário, tudo é sempre deslocado para o imediatismo do registro, sem grandes contextualizações ou discussões em torno das próprias informações expostas. Neste caso em particular, a imagem não fala por si. Toda a narração busca reforçar o sentido da obra em si, procurando nos escombros das memórias os impactos dos acontecimentos. Porém, como objeto de discussão política, o material é inacreditavelmente rico, até pela maneira que costura opinião pública, crença e ideologia. De maneira inconsciente, existe um tom macabro na série de mentiras e tentativas de culpabilizar a população ali residente. O pai da cineasta protagoniza algumas falas interessantes durante a projeção, assim como a ação interna de alguns registros conseguem criar uma dinâmica urgente. Mas se essas questões não são apresentadas com o viés de um debate da realidade em si, é pela forma como essa construção é feita, aproximando-se de um paralelismo contextual. Os conflitos de interesses ali envolvidos são mantidos como parte de um fantasma que segue assombrando a histórica recente da Argentina.

Mas se após a exibição de “Estilhaços”, a discussão pode permanecer entre os espectadores, duas frentes são possíveis: um estruturalismo que se debruça na filosofia da imagem, em caráter diletante e pouco material, ou a necessidade de ampliar a compreensão do que as próprias imagens nos apresentam, tanto a ostensiva exportação armamentista para a Guerras dos Balcãs quanto a necessidade de definição do que é Estado na América Latina. Com muito material e pouca discussão, a fugacidade é a exposição do particular. Por mais que existam belezas estonteantes aqui, o todo não fecha.

Trailer

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