Espíritu sagrado

A irreverência da esfinge

Por Vitor Velloso

Durante o Festival de Locarno 2021

A obsessão em extraterrestres é um fenômeno curioso e “Espíritu sagrado”, de Chema García Ibarra, potencializa isso em uma comédia sombria pouco usual. Nos primeiros minutos existe um estranhamento que gera uma sensação de deslocamento da narrativa, as coisas soam desconexas e as ideias não parecem encaixar. Mas conforme a trama vai se consolidando, o espectador é apresentado a um mundo de crenças esotéricas, alienígenas, cosmos e lutos. Onde os contrastes tornam-se nítidos, há um jogo cômico na encenação que consegue provocar algumas risadas sinceras. Por vezes, uma pessoa atravessando a tela já é motivo de graça, pois o tempo que a montagem articula faz com que breves gestos se tornem engraçados. Mas é necessário ter paciência durante a projeção, pois a trama não é das mais interessantes e a obsessão por alienígenas passa longe de ser um tema interessante.

Não por acaso, é apenas um motor do drama, não seu foco total. Conforme essa organização/seita mostra todo o processo burocrático de validação dos “fatos” (pessoas que afirmam ter tido contato com ETs), o filme ganha vida. A troca na cadeia de comando gera um certo reboliço na narrativa, já que uma imensidão de arquivos é passada para ele: algo em torno de dez folhas e três livros. Porém, ao passo que o espectador testemunha essas reuniões, outra história vai se desenhando em paralelo, através de reproduções midiáticas e matérias jornalísticas, o desaparecimento de uma criança. Fica claro que há uma ligação nisso tudo e a história do homem que está com o espírito de José Manuel é uma falcatrua deslavada. Logo, “Espíritu sagrado” não aposta no mistério dessas tramas, porém na comédia inerente à alienação de seus personagens, afinal, é engraçado ver uma pessoa acreditar que uma parente próxima vai virar uma esfinge.

O longa recorre a alguns maneirismos do cinema comercial europeu dos últimos anos para conseguir criar uma ruptura em seus ritmos, a proposta é interessante porque assimila a parte funcional da indústria sem ceder seus tempos à isso. A estética do 16mm remonta um estilo particular que cria uma dicotomia entre os dispositivos dramáticos e a forma como elemento primordial para o funcionamento de tudo aqui. Nenhuma escolha soa inconsciente, até quando o humor falta, existe um processo cautelosamente articulado. Quando a revelação vêm à tona, o “mudo” da televisão é a síntese dessa alienação, ocasional e proposital, que não está presente na hora da exibição e retorna ao trono egípcio para se deliciar com aquilo que a mais-valia ideológica tem para oferecer. A ridicularização dos ufólogos surge em um momento oportuno, onde as pessoas questionam se a terra é geoidal (ou popularmente, redonda), desmoralizar as seitas que acreditam serem “incompreendidas” é um movimento, no mínimo relevante. Afinal, os argumentos de ambos não diferem tanto, só a crença.

Na esteira das comédias estoicas, “Espíritu sagrado” é menos consentido que a grande maioria e é hábil na elaboração dessas estranhezas que fogem uma representação desengonçada. Contudo, a progressão lenta acaba perdendo parte do interesse do público nesses personagens que sempre retornam ao mesmo raciocínio barato. Ainda que seja divertido ver pessoas adultas indo para o meio do nada na intenção de ficar no meio de “pirâmides” de luz neon, a narrativa não flui bem o tempo todo e algumas dispersões se tornam inevitáveis, ainda mais com uma exibição online.

Ao pensarmos no que a Concorso Internazionale exibiu até o momento, o longa não deixa a desejar dos demais concorrentes, mas além de não se destacar será facilmente um dos mais esquecíveis de uma competição não tão memorável (contando com o que foi liberado para a imprensa cobrir à distância). O final do filme deixa uma brecha para ser acusado de xenofóbico sem muita consequência. Mais previsível que parece, menos incômodo que acredita, a tragicomédia de contrastes acaba sendo funcional em um todo, até onde estamos disponíveis ao delírio.

Trailer

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