Entre Nós, Um Segredo

Oralidade e tradição

Por Vitor Velloso

Durante o CineBH 2020

“Entre Nós, Um Segredo” de Beatriz Seigner e Toumani Kouyaté é um documentário de forças ímpares por razões diversas. A iniciativa de tratar de uma perspectiva raramente ampliada ao cinema, constrói aqui um processo antropológico que possui uma razão burguesa mas uma estrutura de honestidade diante do objeto. É o próprio ato de despir-se e filmar aquilo que não se compreende. Boa parte dessa tônica é dada através de uma composição onde a câmera não se insere no espaço e na cultura, nem mesmo é capaz de assimilar os acontecimentos, mas enxerga suas potências.

Não à toa, Toumani Kouyaté faz a interlocução de maneira mais didática, traçando um paralelo de compreensão mais imediata para o espectador. Parte da cultura se torna mística, mítica e alegoricamente desprendida da realidade material que o mundo ocidental cristão estabelece. E essas relações se dão através da prática consciente da oralidade, aqui, mais que uma simples contação de histórias. Uma cultura que não é apenas transmitida, mas existe em torno dessa oralidade. É um totem basilar de sua existência. Ela própria. Mas a perspectivas oral, se mantém como ponto único da própria estrutura do filme, que se molda através das filmagens locais e das entrevistas, com essas últimas sendo o paralelo de guia para o espectador. 

Sem o tom mimético expositivo convencional no cinema contemporâneo, “Entre Nós, Um Segredo” busca uma funcionalidade particular, tentando uma aproximação do lugar de seu protagonista, onde a partir dessa oralidade, a História se faz material a partir do momento onde é contada. É um movimento interessante de captação, já que recusa o comprometimento com a verticalização da ordem pragmática burguesa. Secciona uma realidade mais comum à essa narrativa totalizante de um povo. A própria concepção universal de um paradigma interno que é costurado através das partes comuns nas relações materiais, sociais e culturais. A última história contada por Toumani Kouyaté é uma síntese desse grau totalizante das tradições locais. Há um processo de internalização de todos os mitos e narrativas, em prol de um mundo melhor. O olhar do documentário se mantém como observação constante dessa ordem geral e totalizante, sem que haja um virtuosismo fetichista diante do povo de Mali. 

Por essas razões, seria possível discutir que “Entre Nós, Um Segredo” depende imediatamente da ordem oral de seus personagens, para que haja uma estrutura a ser seguida. Pois como a viagem de seu protagonista, o longa mergulha sem uma consciência basilar de onde apontar a objetiva. E isso é processo que o difere da maioria que carregam a categoria no sub gênero, o filme-processo tende a abordagem inconsequente, quando não fetichizado, de uma articulação pré-definida, amplamente ideológica e classicista. Aqui, essa ordem se mantém em segundo plano, realçando um interesse mais genuíno de manter-se distante dos processos culturais, retratando-os sem uma prévia dos acontecimentos. O mistério de algumas cerimônias se mantém para a produção do filme, que apenas registra, sem o fascínio da dominância. 

É onde o acaso dá a tonalidade do ocaso desse registro, lançando luz apenas nessa materialidade presente, de espaço e tempo. Os ritos se constroem com a ausência de um atravessamento ocidental cristão, nem é julgado, promulgado ou dogmatizado enquanto esse evento particular de proporções ornamentais para o documentário e Toumani Kouyaté faz questão de fortalecer os vínculos com a tradição, mantendo apenas a ponte formal desses universos que se distanciam conforme a progressão do longa acontece. As propensas interseções são expostas em tom direto em algumas passagens, onde a própria presença da câmera ali, é questionada. Essa frequência da linguagem, não é a aberração em ciclo, apenas o encaminhamento da mensagem, das histórias, dos mitos e dessa oralidade tradicional que mantém a cultura viva, um povo de pé, a cantar e falar. 

“Entre Nós, Um Segredo” possui méritos conscientes, ainda que atrase seu ritmo para conseguir alguns deles, mas termina como uma obra com forças (in)distintas que promove a palavra e a tradição oral de um povo que é registrado pelo cinema. A história final é um flagra desse norte conciso e consciente de como as relações são mantidas como a própria forma. A palavra é cinema e vice-versa.

Trailer

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