Entre nós talvez estejam multidões

Cinema e geografia

Por Vitor Velloso

Durante o Olhar de Cinema 2020

“Entre nós talvez estejam multidões” de Pedro Maia de Brito e Aiano Bemfica é um filme de “imediatez”, sem concessão na captação do espaço-político. Não há grandes parafernálias e pirotecnias formais aqui, é o cinema direto, estetizado, aos moldes das produções brasileiras contemporâneas. 

Ao longo dos anos, fica claro que o cinema brasileiro contemporâneo, e a crítica, estão seguindo padrões particulares. A transa estética de Uchôa e a filmes de plástico, rendeu alguns projetos que buscam emular a compreensão espacial em torno desse palco de contextos políticos diversos. A ordem é traçar o quadro da “encenação”, delimitar parte desse cinema-geográfico, se aproximar da fotografia dos Becher e expôr a militância política em torno do direito à moradia. O movimento interessante aqui, além do momento histórico, está em como a articulação não cria esforços em contextualizar o espectador para além do que a oralidade já cumpre. Não torna a mimesis, parte desse processo. Algo que está ligado às referências anteriormente citadas. E aqui há um beco sem saída que o cinema brasileiro se enfiou.

Se por um lado, a unidade estética e formal parece ter encontrado a solidez de uma representação geográfica, do cinema-geográfico, da exposição política de um registro Histórico. Por outro, torna inviável parte da crítica possível do mesmo contexto, pois exclui de si à ordenação da síntese tão cara à brasilidade, o ato de ponderar o político e a moral. A isenção do cinema diante dessa realidade, acaba caindo por terra quando algumas pessoas revelam o dispositivo. E mesmo que exista uma espécie de “mea culpa” em manter os planos onde os entrevistados pedem desculpas por alguma pessoa passando etc, o local de concessão do espaço permanece. Há um distanciamento desse cotidiano, há o rigor excessivo da forma, em detrimento dessa abordagem do espaço político. As tomadas gerais não são suficiente em concatenar o materialismo que tanto é discutido na tela. Isso porque o filme recusa a intervenção, enquanto ato político, duvidoso, pois o limite do respeito e do fetiche nem sempre estão claros no cinema. 

“Entre nós talvez estejam multidões” direciona ao respeito, de forma clara. Mas essa padronagem contemporânea de “deixar que o material fale por si”, não se encontra às bases de uma ideologia consolidada. É mais uma movimentação estética, que torna-se política por conceber esses espaços como abordagem cinematográfica de concessão. Nunca o contrário. E é onde o axioma, criado por essa proposta, se encontra, pois não reconhece em si a possibilidade de materializar as políticas enquanto forma cinematográfica, no encontro excessivamente formal da relação desse cinema-geográfico, e se vê incapaz de construir debate crítico em torno dessa realidade. Não à toa, são duas vertentes mais claras ao debater projetos como este. 1) O paralelismo absoluto. Onde as pessoas usam de eloquência tacanha e fajuta, “o cinema como tal coisa” e as investidas contra os títulos originais, criando novas possibilidades. 2) A abordagem em torno de “como essa realidade nos é apresentada como um quadro”.

O que há em comum, é o desvio tortuoso da matéria, da base, da História, pois aproxima-se do pensamento burguês para a “análise da unidade fílmica e como ela articulou sua experiência” e todo aquela falação alienante em torno de como a “política se faz na tela”. 

“Entre nós talvez estejam multidões” não pode ser sintetizado aos seus quadros e aos espaços criados ou expostos. Há um retrato latente do subdesenvolvimento, do terceiro mundo, do capitalismo falho, dependente, da miséria moral do eterno país do futuro. É Legião Urbana e seus conservadorismos de quinta, sendo transportados para uma realidade distinta. Mais uma demonstração de como a cultura brasileira se vê atravessada por essa burguesia detentora do capital intelectual. E primordialmente, é cinema mineiro, regional, que se reconhece como tal, não à toa, torna suas referências base de seus projetos, pois se um dia a movimentação política e cultural surgiria na Bahia, profetizou o cineasta de Vitória da Conquista. Hoje, ela vem de Minas. Mas há muito o que percorrer, ainda estamos em exposição, precisamos de crítica e da dialética. 

Ao lado da produção e da distribuição em solo brasileiro, deve haver um reconhecimento da crítica em torno “das articulações e experiência que a obra te proporciona”, não?

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