Entre Nós e o Mundo

Entre a morte e uma possibilidade de vida

Por Julhia Quadros

Durante o Curta Kinoforum 2020

O filme “Entre Nós e o Mundo” (2019), de Fabio Rodrigo retrata a triste história de uma mãe, que perdera o filho mais velho Theylor, assassinado durante uma revista da polícia. A obra tematiza um caso muito recorrente na atualidade, devido à configuração estrutural do Brasil, que torna as pessoas que têm menos recursos mais vulneráveis e propensas a sofrer violência, em um complicado sistema, que apresenta muitas heranças de um período escravocrata, cujos códigos e características não foram completamente extirpados da nossa realidade.

“Entre Nós e o Mundo” nos apresenta esta situação revoltante, através de uma narrativa que mistura ficção e documentário, trazendo a imersão e a pessoalidade da diegese e a denúncia e a imutabilidade dos fatos da criação documental; desta forma, o filme faz com que a tristeza e o sofrimento da mãe, grávida e insegura por conta do acontecido com o filho mais velho, se evidencie ao passo que a sensação de impotência diante da inexorabilidade do sistema se agrave. Esta construção, que orquestra o microcosmo de uma questão familiar e um sistema que abrange aos limites nacionais se torna um dos pontos mais característicos e interessantes do curta metragem, que se torna uma boa alegoria de diversas faces da realidade do Brasil da atualidade.

Na direção de Fabio Rodrigo (de “Kairo“), percebe-se a mistura de linguagens quando o filme, a princípio se apresenta como uma ficção, com, porém, a utilização de imagens e depoimentos da família, lamentando a perda de Theylor. O espectador, devido a este jogo narrativo se vê entre o desejo de que seja um caso fictício e a constatação de que é um relato do assassinato de uma pessoa. Há nas imagens caseiras uma construção mais verídica, menos ambiciosa, que corrobora esta característica de visões opostas que se complementam ao longo da obra.

A montagem de Caroline Neves contribui para esta organização, apresentando, ao começo da obra a construção mais diegética, com dois rapazes cantando, com um pensamento mais próximo da decupagem clássica, o que se assemelha à apresentação de um filme estritamente ficcional. Esta construção é, para além dos objetivos mais diretos do filme, uma evidência da posição do Cinema e da arte da realização dos dias de hoje, que permeia os registros amadores, um discurso mais direto e uma tradição artística com uma linguagem específica definida e como a arte do audiovisual se situa entra ambos os meios e finalidades desde a ampla utilização do formato digital.

“Entre Nós e o Mundo” é uma obra sensível, que aborda temas como luto, insegurança, desigualdade, maternidade, morte, nascimento e, principalmente, a instabilidade, causada por um sistema que não fornece segurança para a maioria das pessoas, evidenciada na personagem principal, dividida entre a esperança do nascimento, a preocupação com o filho e a tristeza pela perda do mais velho. É um retrato interessante, que leva quem assiste a pensar sobre a insegurança e os problemas do país, no qual diversas pessoas são vítimas da estrutura social, assim como o filho da protagonista.

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