Ensaio de Orquestra

Catarse antiautoritária

Por Daniel Guimarães

A sátira é uma das formas mais elucidantes, criativas e interessantes para elaborar críticas e questionamentos. Basicamente qualquer assunto está em seu escopo e, particularmente, é minha forma favorita. Dentro do “gênero”, o cinema escrachado de Paul Verhoeven (Robocop, Tropas Estelares, O Vingador do Futuro) é fascinante. Se compreende, através do absurdo e da ridicularização, as síndromes e os sintomas que o diretor enxerga na sociedade. Diferentemente dos filmes de Verhoeven, que mostram sua verdadeira face imediatamente – uma sátira crítica agressiva, ferrenha e notória –, “Ensaio de Orquestra” não se expõe de imediato. Federico Fellini parte de uma premissa banal para elaborar o absurdo em uma incrível catarse.

O longa acompanha a produção programa para a TV – origem similar à Os Palhaços”, também do maestro italiano –, onde capturam entrevistas e o cotidiano de um grupo de orquestra durante um dia de ensaio. Em boa parte dos dois primeiros atos, parece existir a vontade de extrair uma certa mística das orquestras, dos instrumentos e da própria música. O filme se desenha nesse sentido como uma melancólica homenagem a esse nicho da cultura.

Para isso, cada músico discursa sobre o que acham de seus respectivos instrumentos. As respostas são incríveis – como os diálogos de maneira geral – ao personificar os objetos. Parecem, de fato, estarem se referindo a pessoas queridas.  Além de infinitas outras afirmações, alega-se que o violino é “feminino” como uma mulher sedutora. É fascinante, também, como as características dos objetos refletem imageticamente a própria personalidade de cada músico, como se fossem uma extensão um do outro. Ao afirmarem que flautistas são “doidos”, por exemplo, surge uma flautista completamente descabelada.

Todos amam seus próprios instrumentos – particularmente interessante é o músico da tuba, que, ao se aproximar para tocá-la, parece estar sempre prestes a dar-lhe um beijo – e todos os defendem como os principais de uma orquestra. O filme reforça que os personagens sequer sabem a razão de estarem no ensaio, ou em que aquilo resultará. E mesmo cada um aparentando ter seus próprios dilemas, todos parecem realizados ao falar sobre sua grande paixão na música. Assim, também a defesa da liberdade musical é afirmada.

“Ensaio de Orquestra” não se conclui, porém, com melancolia e adoração. Pelo contrário, esses fatores servem perfeitamente para construção de um terceiro ato onde as camadas de sátira, surrealismo e catarse se revelam. O retrato da obra se expõe magistralmente como uma crítica ao autoritarismo, o tratando como perigoso, absurdo e limitador. Ultrapassando a barreira de um simples ensaio, a maneira que o condutor da orquestra é retratado – opressor e grosseiro – atinge o social e político. É dito em certo momento que em tempos passados tal comportamento por parte de um condutor era abertamente aceito e até incentivado pelos músicos. Nos tempos do filme, entretanto, não se encontra mais tamanha facilidade. Há confronto e não se aceita facilmente a opressão. Talvez haja em tal discurso um olhar sobre o próprio passado fascista do país.

Como um paralelo a revoluções sociais, os mais jovens lideram as manifestações contra o autoritário condutor. O esforço em direção ao surrealismo, ao pensar que um desentendimento musical poderia chegar àquele nível de revolta, é notável. Entretanto, através desse elemento narrativo, Fellini consegue falar de muito mais. Encontra-se outras claras analogias ao processo de revolta: o culto ao líder para o “novo diretor de orquestra”, as dissidências que rapidamente acontecem em meio a um levante e, por fim, como em qualquer resposta de governos autoritários, repressões violentas e agressivas. Tal qual regimes de tirania que se regozijam ao “lembrar” dos feitos de um passado inexistente e fantasioso, o diretor da orquestra discursa sobre os “grandes tempos” da música, onde os artistas se levavam ao limite, de forma a justificar seus atos.

“O mundo é belo porque é variado”, é dito por um músico em certo momento. Dentro desse universo, da cultura e da arte, essa variação e a diversidade são fundamentais. Cada indivíduo possui sua própria personalidade e isso se reflete em sua arte, a tornando viva. No caso de “Ensaio de Orquestra”, a música. A padronização arbitrária e absoluta é, além de desprezível, burra. Com seu final satírico e pessimista, de banalização da violência e da repressão, Fellini parece deixar o eterno alerta de Brecht: a cadela do fascismo está sempre no cio.

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