Encarcerados

A necessidade das escolas

Por Vitor Velloso

Durante a Mostra de São Paulo 2019

A equação que não bate. O início de “Encarcerados” é potente, pois desenha de maneira direta uma realidade que não está nas mídias, a vida dos carcereiros. Sem dramatização desnecessária, o documentário situa rapidamente o espectador em meio a um universo corrompido pelo medo e violência.

Dirigido por Pedro Bial, Fernando Grostein Andrade e Claudia Calabi, o filme conta a narração de Milhem Cortaz que também estava presente durante a projeção na 43ª Mostra Internacional de São Paulo. Contando com depoimentos de impacto forte no espectador, o projeto costura com fluidez a necessidade de se humanizar o ambiente penitenciário, do lado dos prisioneiros e dos carcereiros. Se inclinando a medir um debate antigo, os diretores mantém uma postura pouco incisiva sobre a narrativa dos profissionais ali envolvidos, dando valor à escuta, antes de qualquer intervenção. As dificuldades que são atravessadas pelos agentes são intensificadas de forma tensionada pelas entrevistas que demonstram o total despreparo do Estado com as vidas mantidas atrás das grades e fora delas, que cria um ambiente de medo profundo e uma tensão que permite uma degradação psicológica constante dos funcionários.

Normalmente atraídos pela estabilidade financeira, os agentes se projetam no emprego sem conhecer os riscos do mesmo. E é onde “Encarcerados” firma sua perspectiva, pois a problemática da violência física é conhecida pela população, ou grande parte dela, mas a mutilação psicológica não. Fixando o maior perigo na profissão, já que com mudanças na legislação, a partir de Carandiru e outras revoltas, o carcereiro não mantém nenhum tipo de contato com os prisioneiros, criando uma faca de dois gumes, já que o afastamento reduz riscos imediatos, mas acentua a desumanização da população carcerária. Dentro dessa proposição do Estado, não é levado em consideração que a falta de conhecimento de ambos os lados das grades, intensifica uma fragilidade nas relações de respeito e empatia, formando um ambiente volátil e imprevisível, pois se há uma clara separação física e social em um local comum, temos uma tortura de caráter “legal” ocorrendo.

O aparelho político que move tais engrenagens não reconhece ali um objeto de segurança, mas sim de punição direta, que acaba se refletindo no carcereiro. O terror constante daquelas vidas é a centralização temática do longa, que utiliza recursos dramáticos na música e na narração compondo uma aproximação com a televisão, mas de maneira didática para o público. A abordagem é versátil em conciliar os dois lados da discussão, sem soar propagandista. Assim, o documentário desenvolve uma linha de argumentação que segue uma lógica formal bastante clara em sua necessidade de afirmar as questões políticas que aborda ao longo da projeção. A montagem é eficiente em seccionar pequenos momentos diferentes da obra em uma coesão narrativa respeitável, sendo capaz de transitar entre entrevistas e imagens de revoltas em presídios sem soar fora de contexto, nem momento.

Os aplausos depois da exibição na Mostra de São Paulo 2019 são justos a partir dessa perspectiva de horizontalizar todo o processo carcerário junto ao público, sem que a linguagem seja sacrificada na feitura com intenções meramente comerciais, logo, o filme consegue ser justo consigo mesmo, com o espectador e com as questões políticas que trabalha. Sua vindoura projeção no Festival do Rio, mostra a força que há em “Encarcerados”, que atravessa uma multiplicidade de questões maior que a maioria dos produtos poderiam alcançar, no campo social, político, até mesmo formal.

Detendo a atenção para um momento onde o país insiste na segregação de classes e mantém a estrutura histórica opressora, ainda que a negue (ou aplauda), o filme ganha um vigor a mais por possuir uma proposição que não busca reconciliação nem reparação, apenas uma denúncia sólida que atinge diretamente um lado oculto de uma história que a mídia insiste em apagar. O próprio Milhem Cortaz antes da exibição disse: Menos prisão, mais escolas.

Os diretores de “Encarcerados” foram eficientes em estruturar um projeto que se relaciona com uma contemporaneidade que é reflexo de um passado maior, assim as discussões propostas não ganham contornos que negligenciam os problemas ali envolvidos, pelo contrário. E o mais importante, não aponta uma solução que diz respeito à produção, mas sim através do olhar de quem vive o medo e o horror diariamente sem o amparo do Estado, abandonado por aqueles que deveriam proteger os dois lados da moeda.

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