Elize Matsunaga: Era Uma Vez Um Crime

Sem nome

Por João Lanari Bo

Netflix

Um dos momentos mais impactantes desse mundo novo de imagens monitoradas que vivemos – as milhares de câmeras de vigilância instaladas nas ruas, comércio, residências – foi assistir Marcos Kitano Matsunaga, 41, presidente da empresa Yoki, subindo no elevador carregando uma pizza, no começo da noite do dia 19 de maio de 2012. Marcos se recosta na lateral do elevador, relaxado: uma imagem que se perderia na imensidão dos registros diários das portarias, até ser apagada por um gesto mecânico qualquer. A imagem, entretanto, ganharia uma carga inaudita de significação: em poucos segundos, ele sairia do elevador para entrar na obscuridade eterna. Sua mulher, Elize Matsunaga, 30, esperava o marido armada de uma pistola Imbel, de fabricação nacional, calibre 380, presente do próprio Marcos – uma das 33 da coleção do casal. Brigaram, por conta das traições de Marcos: um tiro à queima roupa na cabeça matou-o na hora. Na manhã seguinte, Elize levou o corpo para o quarto de hóspedes e o esquartejou em sete pedaços, usando uma faca de cozinha com lâmina de 30 centímetros. No mesmo dia, às 11h30 da manhã, foi flagrada pelas câmeras de segurança do prédio em que morava, saindo e carregando 3 malas. O prédio fica em Vila Leopoldina (zona oeste de São Paulo), bairro tranquilo e aconchegante, segundo os agentes imobiliários: os pedaços do corpo foram espalhados em sacos plásticos na região de Cotia, na Grande São Paulo, área que conta com estilo de vida saudável e acessível, de acordo com os mesmos agentes. A minissérie documental em quatro episódios “Elize Matsunaga: Era Uma Vez Um Crime”, dirigida por Eliza Capai (de “Espero Tua (Re)volta), recapitula com eficiência os pormenores e dissabores desse enigmático fait divers – ou seja, um acontecimento cujo interesse reside naquilo que tem de insólito, extraordinário, surpreendente.

Segundo Roland Barthes, “não é preciso conhecer nada no mundo para consumir um fait divers; ele não remete formalmente a nada além dele próprio”. Sem duração e sem contexto, o fait divers constitui-se em uma estrutura fechada. Diz o semiólogo; “se pode presumir que não há nenhum fait divers simples”. O que explica o crime bárbaro de Elize? Seria ela esquizofrênica, um caso psiquiátrico que desafia a lógica cartesiana que utilizamos para situar-nos nesse mundo de intempéries e violências? Uma mulher acuada e indefesa, ou uma assassina fria e calculista? “Elize Matsunaga: Era Uma Vez Um Crime” organiza seu eixo narrativo a partir de uma longa entrevista que Elize, só agora, nove anos depois, pela primeira e única vez, aceitou dar sobre o caso. Seu discurso é articulado e coerente: sem dúvida aperfeiçoado pelo curso de Direito que completou, mas também subsidiado por uma reflexão dilacerada sobre a própria vida, da infância pobre, marcado pelo estupro do padrasto, ao cotidiano de garota de programa anunciada nos sites de encontros. Sem cometer erros de português, ela discorre sobre presente, passado e futuro de forma persuasiva – o crime que cometeu parece descolar-se do mundo fechado do fait divers e integrar-se no fluxo dos acontecimentos banais e ordinários da existência. Claro, colabora a hábil articulação de depoimentos orquestrada na minissérie, do promotor e advogados, dos familiares e amigos: a construção dos argumentos que agitaram o julgamento de Elize – sobretudo se foi ou não um assassinato premeditado – afiguram-se como etapas de uma cadeia lógica e plausível. Barthes escreveu, no seu fabuloso livro, “Mitologias”:

Ocorre então que o crime é sempre construído pela Justiça segundo as normas da psicologia clássica: o fato existe apenas como elemento de uma racionalidade linear, ele deve ser útil, pois se não o for perde sua essência, não pode ser reconhecido.

Qual seria a razão utilitária que motivou Elize a cometer o crime? A causa, mesmo que mínima, que a levou a assassinar o marido em vez de, simplesmente, divorciar-se? Para a acusação, é preciso encontrar um nome jurídico que conceda ao ato uma aura de racionalidade, uma causalidade criminal, como diz Barthes – mesmo que fundada na cólera momentânea do ciúme enlouquecido. E completa o pensador francês: “basta, pois, que o gesto seja abstratamente útil para que o crime receba um nome”. Em contraposição, não restou mais à defesa da acusada, paradoxalmente, “senão invocar para esse crime uma espécie de estado absoluto, privado de qualquer qualificação, e fazer dele precisamente um crime sem nome”: ou seja, um gesto instantâneo de defesa motivado por um impulso de autoproteção, sem cálculo ou premeditação. Após uma rápida maratona assistindo “Elize Matsunaga: Era Uma Vez Um Crime” – méritos para a produção, que capta nossa atenção sem vacilar – o que resta disso tudo é um núcleo vazio, enigmático, impenetrável: afinal, quem é Elize Matsunaga? Que crime é esse, um crime sem nome, que cometeu? Como entender sua frieza esquartejando o corpo do marido? Para a Justiça, o crime de Elize Kitano Matsunaga, denunciada e condenada por homicídio qualificado e ocultação de cadáver, tinha nome: no dia 05 de dezembro de 2012, foi condenada a 19 anos, 11 meses e 1 dia de pena. O que se passou na cabeça dela, não obstante, jamais saberemos.

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