El Perro que no Calla

A crônica de uma vida fabular

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Roterdã 2021

Vencedor do Prêmio de Melhor Filme da mostra VPRO Big Screen (tela grande) do Festival de Roterdã 2021, após ter sido exibido um pouco antes no Festival de Sundance, o mais recente filme da realizadora argentina Ana Katz (de “Sueño Florianópolis“, “Minha Amiga do Parque”), “El Perro que no Calla” é uma sensível, orgânica e intimista fábula sobre a aceitação da própria vida. Sobre se reerguer perante às dificuldades do caminho. A narrativa, que nos remete a “First Cow”, de Kelly Reichardt, uma das homenageadas desta edição online, e a “Inside Llewyn Davis – Balada de Um Homem Comum”, dos Irmãos Coen, conduz-se por situações ao acaso, de elipses metafóricas de realismo fantástico, que acontecem no épico-jornada-existência de Sebastián. Inicialmente, apenas um homem com sua cachorra (uma atriz-animal digna de Oscar pela sutileza e naturalidade das reações, como fechar os olhos ao céu) melancólica (um estorvo à “tranquilidade” dos vizinhos por “chorar o tempo todo”).

Nós somos convidados a participar dessa crônica individual, sôfrega da hostilidade robótica das relações humanas em “educação” automática e simpatia protocolar-diplomática. Contempla-se assim o movimento, por detalhes, de ações extra-campo, firmando o típico humor argentino, que ironiza com vitimismo (e justificativas estapafúrdias). “El Perro que no Calla (a cachorra que não se cala)” é uma representação de um tempo egoísta não mais humanizado. Que não encontra lugar para a simplicidade. A fotografia em preto-e-branco quer sinalizar isso. Esse saudosismo de uma época consumida pela urgência do ter que acontecer pluralmente e sem descanso. E que suga toda e qualquer perspectiva esperançosa a um mundo melhor. Ou apenas igual.

Sebastián (o ator Daniel Katz, irmão da diretora), que diz ser “outra coisa”, é acuado, como um animal marginal, vulnerável e descartável. Em casa, no trabalho, na família. Não há lugar de fuga-refúgio. “El Perro que no Calla” também nos infere ao filme italiano “Umberto D.”, de Vittorio De Sica, pela semelhança de tratamento e pela incompatibilidade que os personagens encontram. Esta é uma história de amor. Uma ode a recomeços. Que suaviza o drama da perda da ingenuidade com desenhos pintados aos moldes de um conto de fadas. Há também uma atmosfera de estranheza etérea, hiper dimensionada, que se intensifica com a chegada do ar tóxico (outra metáfora crítico ao ambiente atual em que vivemos), que os transformam em marcianos modernos em um terra dominada pelo livre-arbítrio das vontades subjetivas. Em escolhas de usar ou não roupas de astronauta. Sebastián precisa se redefinir, como um ciclo intermitente, e a priorizar o que é realmente importante. Adentra assim em “trabalhos clandestinos”, sempre em atrito com o sistema e padronizadas políticas-ordens governamentais.

“El Perro que no Calla” ensaia um futuro. Bem desanimador. Traduzido por acontecimentos estranhos (um meteoro “sem sucesso” em sua missão) que causam “cansaços inexplicáveis”. Ainda que a cada mudança (e a cada cena que representa um salto no tempo) não sinta revolta, Sebastián sabe que ali não é seu lugar. Que não pertence a esse mundo. E até a possibilidade de respirar outra ar é roubada dele. Há uma solidão-melancolia, entre resignação passiva e resiliência apática, talvez passada de sua cachorra. Não reclama, mas sente um latente desconforto. O longa-metragem é também uma crítica a própria Argentina. A de não tratar bem seus integrantes natos em prol de um desumano capitalismo, que corrói e leva a todos ao “lado negro da força”. Concluindo, “El Perro que no Calla” é um filme que não se cala. Pode até chorar, mas não desiste.

O júri do Festival de Roterdã, composto por Júri: Mauro Corstiaans, Oriana Baloriano, Frits Bienfait, Magda van Vloten e Mirjam van den Brink, justificou a escolha do prêmio de melhor filme: “O filme que escolhemos como vencedor deixou uma grande impressão em todos nós. O filme dá o tom desde o início com uma cena de abertura brilhante e à medida que a história se desenrola, somos atraídos para o cotidiano de um jovem que tenta encontrar seu lugar em um mundo que, a certa altura, se torna estranhamente familiar. No entanto, é uma história de esperança e otimista, sem abrandar os desafios especialmente para os mais jovens. A diretora poderia ter abordado essas questões em um filme social-realista mais ou menos convencional, mas em vez disso ela fez algumas escolhas radicais em relação à narrativa, estrutura e cinematografia. Acreditamos fortemente que este filme ganhe um lançamento nos cinemas holandeses e esperamos que este prêmio contribua para isso.”

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