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Eami

O tempo latino

Por Vitor Velloso

Festival de Roterdã 2022

Eami

Funcionando como um registro histórico que atravessa uma série de contextos, “Eami”, dirigido por Paz Encina, é um curioso filme que desenvolve um olhar particular sobre os povos originários, ao mesmo tempo que faz sua denúncia contra o genocídio constante dos mesmos. O interessante aqui é justamente a forma que a diretora encontra de equilibrar a cultura indígena, e sua forma de observar o mundo ao seu redor, com a construção das diversas formas de violência dos brancos, através do tempo. E isso porque o longa não se concentra em um recorte temporal estanque, propondo uma jornada que equaliza as formas de violência, independente do contexto. A estratégia funciona bem pela fragmentação da obra, que não se debruça em uma narrativa linear, mas oferece blocos que vão somando uma experiência quase sensorial. 

É um projeto pouco burocrático nesse sentido, pois não se mantém vinculado à uma decisão estética convencional, ainda que não tão inventiva. Eventualmente a produção cinematográfica latina se propõe em películas que se fragmentam e apresentam uma espécie de peças de um quebra-cabeça, onde a narrativa linear não agregaria novos fatores de interpretação à obra. Contudo, a contribuição de “Eami” está na sutileza de sua perspectiva vinculada à protagonista, interpretada por Anel Picanerai, o que oferece ao espectador um tom distinto nessa forma de representação da realidade, já que o direito à infância se vê em conflito direto com questões externas à sua vontade, desde a violência do branco, até um cenário apocalíptico (com suas ambiguidades) que se aproxima, que não deixa dúvida de sua origem. 

O problema é que a decisão formal compromete o ritmo drasticamente, tornando a obra muitas vezes inacessível e pouco eficiente. Quando levamos em consideração a possibilidade de alcance de uma obra tematicamente relevante, construída de uma forma onde a concatenação histórica é de uma força impressionante, “Eami” acaba se colocando em um nicho pouquíssimo popular e não permite uma circulação mais intensa de sua discussão. Sua lentidão é comprometedora e pode dispersar parte do público já que seus blocos exigem um foco particular individual. Ainda assim, toda essa construção é capaz de provocar reações diversas, especialmente pela forma como a narração em off insere os elementos essenciais para que possamos compreender as camadas de representação aqui presentes, ressignificando uma série de planos. Esse deslocamento de um lugar violento para uma violência simbólica, carregada de um contexto terrível, é uma das grandes marcas do filme. Esta estrutura que transita entre o documentário e a ficção, narrado por essa figura onisciente Asoja, oferece uma grande possibilidades de inserção em festivais de cinema e possíveis premiações, ainda que se distancie de parte do público. 

É possível que parte dessa problemática levantada por este que vos escreve seja fruto de uma formação distante dessa cultura e desse tempo espacial e cinematográfico representado ao longo da projeção, mas a sensação é de um arrasto prolongado, doloroso (de uma forma positiva) onde a recompensa, pouco celebrativa, é uma experiência carregada pelas mazelas que os povos originários sofreram e sofrem ao longo da violenta história da América Latina. 

“Eami” é um filme pouco convidativo e de difícil imersão em uma tela caseira, podendo ser bem mais efetivo na sala de cinema. Contudo, os minutos finais da projeção nos permite contemplar um cenário devastador que é capaz de sintetizar, especialmente esteticamente, tudo aquilo que a obra procurou explicitar ao longo do projeto. 

É um formato de produção que pode auxiliar drasticamente a forma como algumas obras brasileiras de ficção baseadas no realismo fantástico/mágico se desenvolvem. Isso porque existe um platô alcançado por esses filmes, que dificilmente conseguem trabalhar a questão mais essencial do gênero: concreto x real x fantástico/mágico. Aqui, Paz Encina consegue a partir da realidade brutal e da cultura local criar uma obra que debate a base histórica. Outros diretores e diretoras podem utilizar como referência esse formato, para discutir como a linguagem cinematográfica utilizada em “Eami” inspira uma série de possibilidades de desenvolvimento. 

3 Nota do Crítico 5 1

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