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Downton Abbey: Uma Nova Era

Interlúdio Idílico

Por Bernardo Castro

Downton Abbey: Uma Nova Era

“You’re American, you don’t understand these things.”

– Lady Mary Crawley, primeira temporada, episódio dois.

Foco de muitas obras audiovisuais, o cotidiano garboso e aparentemente banal da nobreza do Reino Unido tem sido um imenso atrativo para a plebe. O motivo de tal capacidade de angariar adeptos não é passível de descrição; só é possível compreendê-lo no simplório ato de se submeter a experiência de assistir. Aclamada pelos fãs da alta sociedade britânica, a série Downton Abbey foi um sucesso entre o público brasileiro. Na segunda adaptação para as telonas, “Downton Abbey: Uma Nova Era”, dirigida por Simon Curtis, somos levados novamente à casa de campo da família Crawley, enquanto ela serve de locação para a produção de um longa, ao mesmo tempo em que um convite inusitado força alguns membros da família a viajarem ao sul da França. Uma ressalva importante precisa ser feita. Infelizmente, este reles crítico que vos escreve não teve a oportunidade de prestigiar a série original. Sendo assim, é evidente que algumas referências não foram captadas, limitando o leque de paralelos possíveis de serem traçados e a compreensão de certas subtramas dentro da história.

O maior problema encontrado pelos adeptos da cinefilia é a falta de veracidade.

É um tanto inverossímil ver pessoas lidando com situações adversas com uma mesura à Luís XIV, ao passo que observam essas mesmas adversidades se resolvendo de forma célere e frugal, sem exigir muito das personagens e sem ganhar muita relevância na narrativa em construção. Os fãs podem arguir que essa é a síntese do “british way of life”, mas é possível ver tramas melhor elaboradas e com mais conflito ambientadas na mesma época. A tensão do final trágico é abruptamente sucedido por um momento frívolo de descontração, como se a tragédia não tivesse nenhuma influência na vida das personagens. Ainda falando da trama, uma dificuldade encontrada foi observar a estrutura. Os realizadores não conseguiram traduzir o formato de série para a linguagem cinematográfica. O fio condutor é fracionado em diversos pequenos conflitos, de maneira que nenhum fragmento ganha suficiente importância, o que explica a sensação episódica elucidada anteriormente.

O verdadeiro interlúdio idílico do longa dá-se pela fotografia espetacular. Com sucesso, “Downton Abbey: Uma Nova Era” capta a beleza imponente das paisagens bucólicas do interior do Reino Unido, composta por pastos verdejantes no fundo de construções mastodônticas. Um fator que corrobora com o impacto positivo da fotografia é a direção de arte, em especial o figurino. Algo corriqueiro em produções de época, o trabalho do figurino é fenomenal e transporta o espectador diretamente para o início do século XX, um período de diversas mudanças no curso das relações humanas. A trilha sonora original é a cereja do bolo. O arranjo de cordas erudito imerge até mesmo o contemplador menos atento e chama a atenção deste para a parte visual estonteante.

Ao longo do enredo, algo inusitado é facilmente notado por quem assiste. Uma das poucas nuances de complexidade do longa-metragem – inevitavelmente involuntária de certa forma – é o cunho metalinguístico. Acompanha-se de perto o processo de execução de um filme mudo dentro da própria encenação. É interessante presenciar as angústias vividas pelos atores do cinema mudo em meio ao período de transição para o cinema falado e a necessidade da própria sétima arte de se reinventar frequentemente no decorrer dos anos, principalmente na efervescência do período entreguerras. De forma velada, mas prudente, o longa também lida com questões sociais e busca implementar alguma diversidade na novela, composta majoritariamente por personagens brancos – aparentemente, a verossimilhança é seletiva.

Já era esperado que esta não seria uma realização disruptiva, que busca explorar os limites da linguagem cinematográfica. De fato, não há essa pretensão. É um romance bem água com açúcar, que mitiga o impacto de todos os seus pontos de virada. Não há um grande conflito. Apesar de ser insosso e apático durante todas as suas duas horas de extensão. Porém, a leveza da trama torna-se um atrativo, transformando estas mesmas duas horas em alguns minutos. Em outras palavras, “Downton Abbey: Uma Nova Era” cumpre com o seu propósito: proporcionar um entretenimento ameno e palatável, sem muitas emoções ou arcos dramáticos narrativamente significativos. É, alguns ousariam dizer, a transcrição fílmica de um chá da tarde – bem inglês, diga-se de passagem.

3 Nota do Crítico 5 1

Trailer

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