Downton Abbey

Ultimato

Por Jorge Cruz

As frias análises críticas de sessões para a imprensa costumam endurecer o coração daqueles que amam o cinema, mas carregam o fardo de analisá-lo com rigor. Por isso, é fundamental experiências como a vivida pelo Vertentes do Cinema, que assistiu “Downton Abbey” em uma sessão regular no Espaço Itaú de Cinema de Botafogo. Ainda mais um produto que se dispõe a revisitar uma série que angariou adeptos apaixonados e que encheram a sala na primeira sessão disponível.

O aclamado seriado teve seu episódio final exibido no Natal de 2015. Não demorou muito que para a pré-produção de uma adaptação para os cinemas fosse anunciada. Era natural que um produto tão caprichado esteticamente, reconhecidamente “cinematográfico”, ultrapassasse a fronteira da televisão. O desafio maior do roteiro, escrito unicamente pelo criador da série Julian Fellowes (ganhador do Oscar na categoria por uma das últimas obras de Robert Altman, “Assassinato em Gosford Park”, que parece um embrião do programa), era inserir um leque extenso, de mais de duas dezenas de personagens, de forma aceitável em um longa-metragem de duas horas. Só que o formato novelesco da série já conseguia com êxito atacar em várias frentes em pouco menos de uma hora. Pois o filme, além de não incorrer em equívocos comuns às transposições de programas de TV para o cinema, vai além e entrega mais do que os fãs otimistas da série esperavam.

Os acertos começam por não tentar inovar, alterar ou ampliar nenhum ponto que faz de “Downton Abbey” um produto irretocável. Os créditos nos colocam de volta dentro do castelo, com os movimentos de câmera meticulosos, indo de encontro ao próximo emissor de alguma mensagem. No caso da primeira cena, Conde de Grantham (Hugh Bonneville) surge com uma mensagem da Família Real, informando que o Rei e a Rainha irão se hospedar lá. Esse passeio da câmera a meia altura de Michael Engler (que dirigiu alguns dos episódios da última temporada) talvez seja um dos pontos mais elegantes, desde o piloto. Quase sempre a meia altura, em constante caminhar para a frente, dá a sensação de ter influenciado de certa forma o trabalho de Yorgos Lanthimos em “A Favorita”.

Impressiona como o filme parece apenas um episódio – talvez aquele que seria a series finale, de fato – mas não dá para entender essa sensação de forma negativa. Dentro da criação de uma nova situação envolvendo aqueles personagens, um pouco mais de suas vidas pode ser contado. É possível que quem não conheça o programa se sinta incomodado dada a impossibilidade de se divertir sem as informações das seis temporadas. Talvez se contente com o deslumbre visual ou use a lógica para classificar as personalidades e os arcos dramáticos dos personagens. Porém, para quem consumiu o produto até aqui, é quase impossível não passar toda a sessão com a emoção de tantos reencontros.

Violet Crawley (Maggie Smith), que em alguns momentos na série ficava um pouco de lado, se ergue como a grande atração. Vem dela todo o sarcasmo que caracteriza o humor inglês, um equilíbrio para melodramas – sendo ainda responsável pelas grandes reações do público na sala de cinema. Nas funções que cabem a cada membro do extenso elenco, há espaço para representação de boa parte deles com eficiência. Certa vez um texto apontava “Downton Abbey” como um programa elitista, posto que idealizava o trabalho pesado dos trabalhadores de um castelo como este. Obrigados a morarem no emprego, quase não havia tempo para algo que não fosse o labor em condições precárias. Particularmente, jamais identifiquei essa idealização ou romantização da exploração patronal, mas no filme há uma tentativa de justificar as atitudes da classe trabalhadora, quase como se as críticas tivessem sido levadas em conta por Fellowes. Quando a comitiva de funcionários da Família Real chega, se estabelece uma espécie de hierarquia, de relação de poder, entre pessoas que desempenham os mesmos ofícios – diferentes apenas da pessoa a quem serve. Por outro lado, ver os Crawleys, inclusive a antes mimada Lady Mary, encarar uma chuva torrencial para organizar a recepção no jardim, torna aqueles nobres bem mais próximos de quem humildemente lhe presta serviços.

Por isso a busca para dar a volta por cima da equipe liderada pelo Sr. Carson (Jim Carter), diz mais do orgulho próprio, ferido pela usurpação de função dos funcionários da Família Real, do que uma subserviência inquestionável àqueles que lhe pagam salários. A chegada da modernidade, representada quase sempre por Lady Edith (Laura Carmichael), ganha novo fôlego pela maneira como Maug Bagshaw (Imelda Staunton) trata sua acompanhante, Lucy Smith (Tuppence Middleton). Duas personagens incluídas no roteiro do filme para amarrar pontas que apenas o Rei e a Rainha não conseguiriam fazer. 

Talvez cause estranhamento o momento em que Andy (Michael C. Fox) age destemperadamente, boicotando o trabalho de seus colegas por ciúmes injustificáveis de Daisy (Sophie McShera). Só que há nesse ponto um resgate de atitudes tomadas pelos antagonistas nas duas primeiras temporadas, uma vendeta caricata, criando uma auto referência. Acaba se transformando em outra qualidade da obra, que adiciona de maneira pontual fan services em diálogos e repetições de ideias antigas de maneira natural. Outro exemplo é o espelhamento narrativo de um dos grandes personagens do elenco, Tom Branson (Allen Leech), um dos arcos mais edificantes do seriado. De motorista a membro da família Crawley, ele se vê apaixonado por  uma governanta, quase como se a vida o colocasse frente ao seu reflexo. Não bastasse isso, esse irlandês radicado na Inglaterra, precisa superar suas reservas à Monarquia ao receber os representantes mais nobre do país.

Lançado no mesmo mês de “El Camino”, filme que se propõe a revisitar o universo de “Breaking Bad”, o longa-metragem transforma a saga de Jesse Pinkman em uma produção constrangedora. “Downton Abbey” consegue, com sobreposição de tramas, ambientação histórica e retomada de temas de temporadas antigas, uma narrativa sem nenhum didatismo forçado. Avança em questões sociais, como a repressão sexual, a criação de laços afetivos que fogem da ligação sanguínea e até mesmo a necessidade de manutenção de propriedades gigantes, caras e tão pouco lucrativas como aquele castelo. São tantas questões possíveis, que seria necessária uma série de textos tratando os personagens separadamente, dado o mergulho naquele mundo que os realizadores do longa-metragem permitiram.

Pode soar exagerado, mas “Downton Abbey”, o filme, acaba coroando um trabalho majestoso de um dos melhores seriados da História da televisão. Faz isso sem criar cascas de bananas para si, sem propor demandas forçadas ou soluções exageradas. Quase como se projetasse seu episódio favorito em uma tela enorme ao lado dos amigos. Em um ano onde se festeja muito repetições de histórias de homens de meia-idade com crise existencial no espaço e dúzias de super-heróis ocupando o mesmo território, não há argumento contra essa produção que não possa ser debatido. Se o cinema atual quer brincar de cânones ininteligíveis para não iniciados, tramas sobrepostas que envernizam sem muita força questões sociais e uma linguagem estética pautada no deslumbre sem ousar muito, estamos diante um exemplar perfeito para os novos tempos. Um acontecimento digno de moments nas redes sociais para os que amam. Aqueles que não conhecem que lutem.

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