Doutor Gama

Um filme que impede o apagamento do passado

Por Fabricio Duque

Première Brasil 2020

Jeferson De assumiu para si a responsabilidade de mudar o mundo com seu cinema. Evocou a aura de Spike Lee para assim reverberar os direitos dos negros em uma sociedade mais justa e livre e existir-abrir possibilidades de trabalhos nos meios audiovisuais. Seus filmes trazem um olhar revolucionário e uma urgência no agir. Em seu mais recente filme “Doutor Gama”, sobre o ex-escravo advogado Luiz Gama, que influenciou os discursos abolicionistas, Jeferson apresenta o gênero biográfico. Um drama histórico. Que busca a máxima aproximação com o público de massa. A trama é traduzida por um palatável roteiro de novela mais romanceada, que requer a cumplicidade, conjugada com outra marcante característica de seu diretor: a passionalidade. “Dr. Gama” objetiva-se ser mais didático, mais explicado, mais mastigado e de fácil absorção, recurso este que não dá margem a outras interpretações. É literal o que se vê e o que se escuta.

O longa-metragem, que estreia hoje nos cinemas, e integra a edição especial da Première Brasil 2020 do Festival do Rio 2021, deseja encenar a naturalidade e inserir parênteses da estética de cinema de arte, como o elemento da quebra da quarta parede, em que o personagem olha diretamente para a câmera, encarando o espectador, e/ou quando imprime a desaceleração para contemplar o próprio tempo, como na abertura de ritmo cotidiano (a câmera acompanha e espera, amalgamada com a fotografia saturada de luz e sombras – é a poética do escuro). Mas a mensagem principal de “Doutor Gama” é mesmo seu discurso, inflamado e de efeito catártico, tentando fazer que as pessoas brancas enxerguem (e não “dormirem mais como anjinhos”) que violentar uma pessoa preta é crime e desumano. E deve ser punido à luz determinante das leis. A história desdobra-se na Bahia, Salvador, e em São Paulo, iniciada em 1840.

“Doutor Gama”, que foi montado pelo próprio diretor, é um ficcional trabalho histórico. E dentro deste gênero biográfico (à moda de “Chico Xavier”, “Divaldo”), não é possível fugir tanto das fórmulas típicas e de seus gatilhos comuns. É como se o contexto focasse mais no conteúdo do que na forma, acreditando-se que ideia transcrita por si só já se basta. Caminha-se pela zona de conforto do imaginário popular, visto que o conceito já está pronto e em tela. Dessa forma, a narrativa tatua essas facilitações perceptivas (de potenciar dramaticidades), como arquétipos estereotipados que não dissociam o ator de seu personagem, que encena pela superfície anti-naturalizada; digressões reconstituídas; a câmera lenta que registra gritos em silêncio; o racismo estrutural de tratamento-venda de negros (alimentando esses arquétipos do imaginário). Como já foi dito, uma novela com ares de cinema (como alívio de respiro com trilha-sonora em drone), referenciando inclusive “Amistad”, de Steven Spielberg, e/ou mais sutilmente “Todos os Mortos”, de Marco Dutra e Caetano Gotardo, e/ou “O Nó do Diabo”, de Ramon Porto Mota, Ian Abé, Gabriel Martins e Jhésus Tribuzi.

Isso tudo permite que a trama tenha seu cotidiano acelerado, de ações-reações mais afobadas, afoitas, exageradas, forçadas, com ingênuas liberdades poéticas e mais ajudadas pelo roteiro, como a amizade imediata com o filho branco revolucionário de um senhor tradicional de escravos. Essa união transforma o protagonista em Dr. Gama, ficando mais espirituoso, humano, perspicaz, inteligente, confiante e irônico. “Quantos crimes foram cometidos em teu nome, Liberdade?”, grita-se na rua. “Doutor Gama” é um filme de núcleos. De atores que participam de esquetes-acontecimentos, como a rápida participação de Zezé Motta e de Clara Choveaux, vivendo a “senhora louca e racista” (“porque o nosso sangue é bom”). É um filme de acasos. De caminhos recomeços por decisões definitivas. A cena, por exemplo, que Dr. Gama diz a um escravo que ele está livre, a expressão resposta do ex-dominado é a de “O que eu vou fazer agora?”, “Para onde irei?”, “Como sobreviverei?”. “A pobreza anda de mão dada com a virtude.”, diz-se. Ao desenvolver, o filme ganha uma aura de auto-ajuda com carga mais sentimental. De mensagens prontas, como a de ”Estude sempre, faça dos livros seus melhores amigos” para “libertar a terra de Reis e de escravos”.

“Doutor Gama” é também um filme otimista e esperançoso. De argumentação pela proteção do ambiente familiar pautado no amor. E de crença nas leis que “provam o caracter” de “um homem, uma ideia, uma luz, um ser humano”. Que salva “criminosos” pela “legítima defesa”. E que faz um “país mais justo para todos”. “Vamos mudar a história juntos”, discursa-se. Esta obra é um documento de uma fundamental figura negra, que ajudou e provocou a luta pela liberdade total e irrestrita. Se hoje a equipe do filme é majoritariamente de pessoas pretas, incluindo o ator Lázaro Ramos, como assistente de produção, é porque tivemos firmes entidades no passado. Jeferson De quer exatamente isso: trazer à luz as vidas negras que importam e que não podem ficar apagadas, especialmente por inserir pós créditos um manifesto mandatório de respeito a essas vidas que apenas querem existir e realizar seus sonhos.

Trailer

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