Dorivando Saravá, o Preto Que Virou Mar

O Nordeste, Brasil

Por Vitor Velloso

Como a parábola de apresentação corriqueira, onde se inicia com o “Não há o que falar sobre…”, onde sempre há o que dizer, Caymmi é a síntese da máxima brasilidade. Às faces de um Brasil de praias, coqueiros e libidos exacerbados, o cantor, compositor, filósofo de múltiplos adjetivos  profissionalizantes que se encerram em sua Bahia. Construiu a síntese didática-dialética do baiano e suas reverências ao verbo e a transição, “Dorivando Saravá, O Preto Que Virou Mar” é gira de Xangô, Oxum, Iemanjá, Iansã e oxalá que a Bahia de todos os santos consuma o assobio que segue unindo as praias da África e do Nordeste Brasileiro.

Se não há melhor retrato biográfico que suas próprias composições, os amigos-admiradores realizam a costura do retrato monumental de um dos poucos brasileiros que merecia o título. O documentário não se prende às representações, mas a tradição oral que se ergue de Bonfim à Vitória da Conquista, Salvador à Santo Amaro. Consciência ímpar de todos os santos e sambas em canção de partida e retorno só, ainda que jamais sozinho. Madrugada que não voltou é a memória de um Brasil que é estuprado pelo neo, liberalismo e pentecostal, onde os Orixás eram cantados nas rádios brasileiras e o negro baiano sintetizava o que de cordial havia no trabalho cotidiano.

O feito de “Dorivando Saravá, o Preto Que Virou Mar” é não ceder ao formulaico das produções documentais, projetar esse passado como uma tradição ancestral que permanece no solo brasileiro como um sopro cultural das identidades múltiplas, sobrepostas. Pois se preocupa com a praia, a areia e os depoimentos como homenagem ao que não pode ser substantivado, adjetivado. Brasilidade não é um termo, é um modo de viver, enxergar e agir. E Caymmi não apenas possuía consciência disso, como fez de sua vida um firmamento para tal. A Academia que se curve à sua família, que Stella já deu o papo. Uma das importâncias do filme dirigido por Henrique Dantas, é formalizar as transas no tempo, a necessidade de se olhar para atrás com o respeito que a tradição nos mantém. São muitas gerações à conjugar seu nome, como um ritual, afinal, Meu pai veio da Aruanda e a nossa mãe é Iansã. “Meu pai Ogum mandou chamar. Eu vim, eu vim de lá. Ele me ensinou coisas sobre amor. E que na paz só se chega com a guerra. E que toda bonança do trono do rei Xangô. Só vai conhecer quem for justo na Terra”.

Dorival “pedia benção para sair e para chegar, não cantava de galo nem em seu terreiro”, não por medo, por respeito. E a postura apenas revela o zelo pela passagem, a convivência mútua, o trabalho.

Ainda que o filme, por vezes, formalize algumas resoluções questionáveis, como as palavras que aparecem nas telas e um excesso de fades, segue como uma grande homenagem à este que firmou que a gente que traz o peixe, é a própria cultura, não parte dela. Talvez essa seja uma das grandes contribuições do artista, tratar da política e da cultura, como o prosaico, ancestral. Voz e violão como força uníssona para representar e falar desta Bahia com H que encanta e segue sustentando o Brasil dos tentáculos estrangeiros. Quiçá o respeito pela palavra, axé. Algumas contradições possíveis, tal como o próprio Brasil, só podem ser entendidos abaixo do altar de devoção. Cordialidades mútuas que de Amado à Caymmi, Caribé pintou o fulgor de uma cultura do trabalho e da tradição que não teme o fim, mas o abraça a partir do limiar da própria vida. É o eterno pêndulo do brasileiro, cantar na canção de partida, assobiar para seguir em frente mas não negar Janaína.

“Dorivando Saravá, o Preto Que Virou Mar” é de suma importância e deve ser assistido ritualisticamente por todo brasileiro que luta para manter um sonho possível, um Brasil do passado e do futuro que é regido pelas ruas. Aos que seguem em transa lusitana, o caminho do mar leva para locais diferentes, o outro lado do oceano possui duas faces e não é difícil prever para qual seguirão, apenas deixem a gira girar, façam o favor.

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