Diz A Ela Que Me Viu Chorar

Dignidades perpetuadas pelo social

Por Fabricio Duque

Vencedor de melhor filme no festival Olhar de Cinema 2019, “Diz A Ela Que Me Viu Chorar” é uma obra que incomoda. Não pelo gênero documental, que por si só já se comporta como ficção, vide que quando se liga uma câmera em alguém, este projeta na tela não a verdade, mas a potencialização da projeção do querer. E sim pela forma de condução-tese exploratória que mais explora a vulnerabilidade de seres-integrantes socialmente que analisa. Há muito mais uma repetição de estereótipos já construídos no imaginário popular.

O que muitos acham uma antropologia de cognição comportamental, aqui, este texto acredita ser um mecanismo oportunista em que dependentes químicos são usados como cobaias e material bruto a diretores que se mascaram de humanitários. Tudo bem, com certeza a réplica-resposta rebatida seria a de retratar um lugar específico presente nas entranhas de São Paulo: um hotel social Dom Pedro que durante vinte meses atendeu, dentro do programa municipal, cento e cinco moradores com perfil de uso abusivo de álcool, crack e outras drogas e que foi extinto pela mudança de governo.

Com produção da cineasta Anna Muylaert“Diz A Ela Que Me Viu Chorar” é um gênero híbrido por se perder nos limites do que é encenação e realidade. Sua narrativa busca a organicidade da imagem e do cinema direto, que contempla ações e reações de forma passiva, sem nenhuma intervenção. Não há perguntas, apenas instantes observados da filmagem que aconteceu entre agosto 2016 e janeiro 2017. “Urubus tiram a negatividade”, diz uma personagem.

O longa-metragem realizado por Maíra Bühler (de “A Vida Privada dos Hipopótamos”, que dividiu direção com Matias Mariani)  é sobre situações, muitas teatralizadas à câmera, próxima (como no momento do elevador) e que atores-reais saem do enquadramento da tela. O resultado soa falso à captação da imagem. Um improviso de tentar ser outro e/ou personificar ao extremo as angústias do eu presente. Ainda que cada um deles continue tomando drogas e desistindo mais da vida e reverberando melancolias e depressão, nós percebemos uma intervenção do ir e vir, optando-se pelas crises sob efeitos da droga. O que se retrata é um cenário de estereótipos (a camisa do time Corintians; o Hip-Hop; a ostentação de citar marcas caras de roupas; o nervosismo e a agressividade pós-droga; o comercial Boticário na televisão). São passionais, estão cansados de sofrer e “perdem ao andar pelo certo”.

Nós percebemos um prédio em que tudo pode acontecer sem lei. Seus moradores estão ali não para melhorar, mas para conviver com a facilidade das drogas, entre provocações e consequências desacordadas. O ambiente é de livre-arbítrio. Alguém procura a ordem. Outros brigam. Um terceiro é esfaqueado. Todos criam “barracos” e reclamam à exaustão da existência sofrida. “Diz A Ela Que Me Viu Chorar” quer adentrar na intimidade underground uma “família”. Talvez o momento mais verdadeiro de todo filme seja a cena do cachorro olhando o dono limpar a casa. “Fiz tudo de bom e de ruim também, mas pelo menos não matei ninguém e não morri. Tem que improvisar. Morrer calado também não dá”, diz-se com “palavras pensadas” e com a convicção absoluta de que “estão sempre certos” e sempre “perseguidos”. Há algo de referencial com o documentário carioca “Eu Sou o Rio”, de Gabraz Sanna e Anne Santos.

Sim, talvez outro incômodo (que ativa nossa sensação de impotência) seja mesmo a de que o filme nos “convida” a entrar neste meio tão distante e tão moralmente deturpado. Dia após dia mais pesado. Mais hardcore. Mais degradado. Confesso que não me senti bem quando assisti ao filme e agora escrevendo a crítica. “Diz A Ela Que Me Viu Chorar” desperta um que de primitivo. De vírgula deslocada sem volta, como a naturalidade encenada.

Quanto mais discorro conjecturas, mais reafirmo a percepção inicial de que a obra desenha uma exploração total da condição humana. Porém, há cenas que podem justificar os oitenta e seis minutos: todos cantando samba e a conversa difícil sob efeito da drogas. Cada um tem a noção exata da “brevidade da vida”. Cada um sofre com solidão, com o descaso, abandono e com a pressão de ser o mesmo sempre. A droga, uma possibilidade de descanso, de “reencontrar” a fantasia da fantasia. Quando digo que o filme incomoda, é por ter em mente que todos são pessoas e merecem dignidade de vencer suas dificuldades. E com essas imagens captadas, todos estarão eternamente fadados a ser o que são agora. Na verdade, “Diz A Ela Que Me Viu Chorar” representa um desserviço à sociedade e à Assistência Social. E sem Natal e Ano Novo felizes.

 

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