Disforia

De uma Praga a um Chá

Por Jorge Cruz

Há filmes que merecem ser revistos imediatamente após sua sessão, para que possamos resgatar as pontas que se uniram de forma tão espetacular ao final. “Disforia” é uma daquelas obras que, além de provocar essa sensação urgente, usa elementos internos e externos para contar uma história recheada de lições e visões – mesmo com poucas personagens e diálogos que se desenvolvem muitas das vezes despreocupados com a objetividade. O longa-metragem, após um prólogo com o condão de provocar a curiosidade a partir do mistério do que seria um sonho de Sofia (Isabella Lima), nos apresenta Dario (Rafael Sieg), um psicólogo que vive um momento em que um evento pós-traumático traz um peso e uma responsabilidade maior em seu ofício. Relutante em cuidar de crianças, ele aceita o caso, parecendo o filme que estaríamos diante de uma relação semelhante a de Cole e Malcom em “O Sexto Sentido” (1999).

Esqueça essa falsa impressão. “Disforia” se revela uma obra difícil, que trata de questões a priori afetas à feminilidade, contudo, mantendo a perspectiva masculina hegemônica. Lucas Cassales, diretor e roteirista (nessa segunda função em parceria com Thiago Duarte) nos entrega uma produção em que fica comprovada que questões urgentes podem ser trazidas para o filme de gênero sem necessariamente usurpar um discurso. Por se tratar de um longa-metragem em que protagonista e ponto de vista se configuram de imediato, o tráfego de representações pode ocorrer sem que a trama principal se comprometa. Isso é feito com esse enxugamento de elementos (personagens, diálogos e até mesmo de som), ao contrário de “Intruso“, por exemplo, que opta pelo exagero cênico e nas interpretações, algo que falamos na crítica desse outro filme brasileiro.

Essa construção minimalista de “Disforia” contribui, claro, para ampliar esse distanciamento daqueles que procuram no cinema um momento de diversão ou até mesmo uma proposta de mistério facilmente solucionável – ou auto-explicativo. Há metáforas e referências clássicas que nos auxilia a conduzir certas propostas de interpretação. A menina se chamar Sofia, a representação da Sabedoria, não é um acaso. Já a chegada da puberdade feminina e todo o abalo que supostamente contribui para que Dario fosse chamado pelo pai da criança é um mote bem comum às produções do gênero.

Aos poucos as informações que precisamos ter sobre a vida de Sofia nos são fornecidas e passamos a ficar intrigados, de fato, com o que se passa com Dario. A Porto Alegre melancólica que as sequências externas nos transporta na primeira metade vai perdendo espaço para uma internalização e uma fuga de realidade comum ao protagonista. É quando o longa-metragem nos coloca em xeque com uma construção de cena que, ao mesmo tempo que insere um elemento externo pré-existente de maneira excepcional, amplia nosso campo de visão (e possibilidades de interpretação) de forma automática. Isso ocorre na linda sequência em que “Artemísia“, canção da banda goiana Carne Doce, é tocada em uma cadência mais lenta. Lembrando a dança que a vocalista Salma Jô faz no videoclipe de 2016, Cassales parece querer esclarecer que estamos diante de um debate sobre a maternidade de maneira antecipada, conduzindo dessa maneira as ações.

A planta com esse nome (em que há referência na letra da música) é o clássico exemplo da frase “aquilo que nos move é o que nos mata”. Dela é possível fazer um chá que auxilia nas dores menstruais e, se tomado em excesso, pode provocar um aborto. Ao transitar em um mundo em que Dario e Sofia sonham, deliram ou idealizam suas próprias vidas, resta ao espectador um leque de provocações sobre as perturbações da maternidade (e da paternidade). Se Alejandro Jodorowsky nos ensina na base do pensamento de sua Psicomagia que nós somos o que já vivemos e o que vamos viver ao mesmo tempo em que estamos vivendo, não há barreiras para entender as representações de filmes como “Disforia”.

Ultrapassada a barreira da estranheza, “Disforia” é uma obra incrível, que une elementos de gênero, propostas do chamado “terror da realidade” e conexões direta com o que há de mais imperioso a se debater na sociedade. A ética médica, o respeito à integridade dos corpos e a dificuldade de aplicarmos nossos conhecimentos e discursos nos ambientes mais íntimos. Entenda Dario como “o santo de casa que não faz milagre” ou como um homem preso dentro dos seus próprios pensamentos. Atente-se para os diversos usos de espelhos no filme e questione se não estamos diante de um o tempo todo. Um longa-metragem em que o protagonista, apesar de acreditar em algum momento que é, jamais será um salvador. Mais do que referência (ou até mesmo inspiração), Carne Doce está ali como uma lembrança (ou homenagem?) de que chegou a hora de nos livrarmos das amarras impostas pela sociedade e nos permitir ter medo do que, de fato, nos apavora. Sermos deus vivo e vossa razão de ser.

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