Direito de Sonhar
Os diferentes recortes da trincheira
Por Vitor Velloso
Durante o Festival do Rio 2022
Em um movimento que parece tentar mapear o outro lado da trincheira de uma guerra que o Estado segue massacrando, “Direito de Sonhar” registra uma série de relatos de moradores e vítimas do Complexo do Alemão (CPX), lugar que vidas foram interrompidas, sonhos frustrados e movimentos sociais abalados pelos agentes externos. Dessa forma, o documentário de Theresa Jessouroun, que já trabalhou como produtora e montadora com Eduardo Coutinho, parece ambicioso na forma como procura abarcar uma gama de temáticas, além de discutir os impactos sociais e econômicos da pandemia no CPX.
Porém, essa aparente ambição se revela um problema estrutural no filme. Isso se dá em razão das múltiplas investidas em tantas frentes de debate, fazendo com que a obra não consiga revelar qual seu verdadeiro objetivo. Este problema é particularmente recorrente em alguns documentários, onde o objeto de estudo/representação é revelado, mas seu problema inicial é pouco trabalhado ou exposto. Em determinado ponto da projeção, o espectador já não consegue mais identificar qual a proposta do longa, pois o projeto inicia com o assassinato de Ágatha, transita para números musicais e salta para questões relativas a interrupção de atividades culturais e sociais na pandemia. Em alguma medida, a violência percorre todo o documentário, como uma chaga inescapável que atravessa a vida de todos os personagens. Contudo, a falta de uma condução estruturada prejudica gravemente a experiência de “Direito de Sonhar”, que parece criar recortes dentro de um único objeto, o CPX.
Durante as entrevistas, Theresa Jessouroun faz algumas perguntas por trás das câmeras, o que permite o espectador ver essas “interferências” durante o processo de filmagens, criando uma imersão no processo criativo dessa representação da sociedade. O problema é que essa estratégia que, em um primeiro momento, parece querer desvelar o aparato cinematográfico para construir uma maior proximidade com o registro, se revela uma questão sensível do retrato final que é apresentado, já que algumas dessas perguntas acabam revelando o viés por trás dos depoimentos. Eventualmente um mesmo questionamento é feito para os personagens: “Você gosta de morar aqui? Qual o lado ruim de morar aqui?”. Esse tipo de indagação é particularmente provocativo, pois já sabemos qual será a resposta para a segunda pergunta, o que reforça uma metodologia que não procura depoimentos das experiências particulares, mas a generalização através de perguntas enviesadas. Está certo que essa é uma estratégia comum nos filmes, e que aqui há a honestidade de manter a pergunta na montagem final. Entretanto, não deixa de intervir diretamente neste recorte proposto pela diretora.
Além disso, as transições para os “clipes musicais”, onde artistas cantam a denúncia social, não funciona bem e parece uma inserção um tanto forçada, que acaba deslocando o fluxo e interrompendo algumas entrevistas. Em contrapartida, “Direito de Sonhar” é capaz de mostrar parte da cultura presente no CPX e nomear alguns atores sociais que trabalham por melhorias nas vidas dos moradores, tanto com projetos educacionais, como a união educação-esporte, ou mesmo na promoção da cultura local. Aqui está os maiores méritos de Jessouroun na construção do filme, pois amarra tanto a questão da mobilidade urbana com cada uma dessas propostas, como consegue traçar um certo mapa de possibilidades de conexão entre o asfalto e o morro, ainda que para quem não conhece a região, podem ficar certas dúvidas.
Próximo ao fim da projeção, um dos personagens expõe o que parece ser uma pergunta da diretora: “O que é a vida no Complexo?”. Essa pergunta parece ser um norte da produção, ainda que não fique claro, mas sem dúvida revela uma das ambições deste projeto. Não por acaso, esse mapeamento de diferentes trajetórias em uma região geográfica tão extensa e cheia de vida, acaba como um grande mosaico de diferentes narrativas e causos.
Existem inúmeras tentativas ao longo de “Direito de Sonhar” nenhuma é particularmente efetiva, mas a reta final procura explicitar de onde alguns dos personagens retiram suas forças, seja com a menina bailarina cantando gospel para a câmera ou com os entrevistados encarando a câmera para o encerramento da projeção, prática que vem se tornando cada vez mais comum nos documentários. Se por um lado, há uma exposição da sobrevivência de cada um diante de uma realidade opressora, algumas decisões estruturais incomodam e comprometem o resultado final.




