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Diários de uma Paisagem

Anti-documentário?

Por Pedro Mesquita

Durante o Festival Ecrã 2022

Diários de uma Paisagem

A crítica de cinema nunca pode ser imparcial. No lugar disso, ela é (e só pode ser) o encontro de uma pessoa com o filme; e já que essa pessoa tem seus gostos, suas inclinações e seus defeitos particulares, estes irão inevitavelmente se refletir no seu trabalho. Tudo isso quer dizer o seguinte: o autor deste texto tem — ou tinha, ao momento do visionamento de “Diários de uma Paisagem” — conhecimento mínimo acerca do seu personagem principal, Tantão. As palavras seguintes refletem, portanto, a experiência de um espectador que assistiu ao filme sob condições específicas, com as quais o leitor pode ou não se identificar.

Parece válido fazer tal observação logo de início pelo fato de que este filme de Anne Santos e Gabraz Sanna deve produzir experiências muito distintas naqueles já familiarizados com o seu protagonista e naqueles que ainda não o conhecem. “Diários de uma Paisagem” trabalha com um material que é, em sua essência, documental, mas a sua forma não é explicitamente documental: não veremos aqui aquelas cartelas que nos explicam o nome e a função de cada uma das personagens, a voz em off que narra o filme à maneira de um professor explicando sua disciplina, os talking heads que convocam outros narradores para oferecer suas perspectivas sobre o assunto… nada disso: o filme não explica nem contextualiza a vida de Tantão, de modo que, para aqueles com conhecimento extra-fílmico a seu respeito, a personagem já parece suficientemente clara, enquanto para aqueles não iniciados, a personagem parece (e assim permanecerá) um mistério ao longo de toda a sessão.

“Diários de uma Paisagem” oferece a experiência de conhecer um homem através dos seus gestos mais banais. Muitos são os planos, por exemplo, de Tantão trabalhando silenciosamente na pintura de seus quadros. O filme não esmiúça a psicologia da personagem a fim de que entendamos o que essa prática significa para ele; sabemos apenas que ela se destina àquele que é o ponto final da narrativa: a exposição de seus quadros numa galeria em Berlim (onde ele reside no período em que o filme foi gravado). Não é só com o silêncio, porém, que o filme trabalha: Tantão é frequentemente enquadrado conversando, seja com outros, seja consigo mesmo, muitas vezes de modo poético e enigmático, sem que consigamos saber o quanto dessa carga poética é performática ou não. O filme, aliás, adota um dispositivo formal interessante para conservar a espontaneidade da encenação durante os seus monólogos: grande parte das cenas é resolvida por meio de um único plano estático, localizado no centro do ambiente onde ela se passa, e a localização de Tantão nos é informada por meio da espacialidade do som.

Esses monólogos são frequentemente entoados sob a ajuda de cigarros ou bebidas. Com as últimas, Tantão tem uma relação complicada; este conflito interno é tangenciado pelo filme, mas nunca profundamente trabalhado. O que parece importar aqui é retratar uma espécie de bipolaridade na vida do artista: as performances que pontuam a narrativa parecem cheias de energia enquanto os interstícios, os pormenores, a burocracia do cotidiano de um artista profissional parecem deprimentes. Naquelas, Tantão parece finalmente encontrar uma razão de ser, embora o filme, mais uma vez, não esteja particularmente preocupado em elucidar o seu processo criativo ou os seus sentimentos para com a sua ocupação. No lugar disso, o foco parece estar na reação da plateia às suas idiossincrasias (o que, ao menos, não deixa de render alguns momentos engraçados, dada a mistura de confusão e divertimento que caracteriza a reação dos ouvintes às performances do cantor).

Enfim, talvez seja por essa recusa radical em “examinar” o seu objeto de estudo aos moldes clássicos que “Diários de uma Paisagem” faça por merecer o predicado do experimental. Se os filmes de caráter documental foram historicamente associados à intenção de descobrir, revelar, explicar o seu assunto, o filme de Anne e Gabraz recusa tudo isso na medida que não define o seu protagonista senão pela superfície. Poderíamos, portanto, classificá-lo como um anti-documentário, visto que ele parece nos sugerir que não há nada que não contenha uma dose de performance? Talvez (embora, como sabemos, a própria separação entre documentário e ficção é artificial e desnecessária, de modo que insistir nesses rótulos não parece produtivo). A bem da verdade, apesar da estrutura narrativa absolutamente protocolar, “Diários de uma Paisagem” ao menos nos põe a refletir sobre tudo isso.

2 Nota do Crítico 5 1

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