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Diário dentro da noite

A ficção e a realidade por uma janela

Por Vitor Velloso

Durante a Mostra de Tiradentes 2022

Diário dentro da noite

“Diário dentro da noite” compõe a Mostra Cinema em Transição e parte do dispositivo do isolamento para desenvolver um registro narrativo que mescla o cotidiano de Chico Diaz com textos e personagens de “A lua vem da Ásia” de Campos de Carvalho, que o ator já adaptou para o teatro. No filme, a angústia da quarentena, o atual governo brasileiro e a necessidade de imaginar novos mundos fora do espaço limitado do apartamento, são ferramentas que permitem múltiplas perspectivas sobre a rotina e um estudo particular sobre a necessidade da fuga.

Pela própria particularidade do dispositivo, existem diversos ciclos repetidos à exaustão em determinados momentos da projeção, como grandes repetições que projetam o tempo ocioso de todo esse período do isolamento. Não por acaso “Diário dentro da noite” brinca com a estrutura capitular e embaralha a ordem da numeração, para que não haja uma noção progressista dos “acontecimentos”. Esse suposto caos, funciona relativamente bem nos momentos em que Chico divaga sobre vidas que nunca viveu, lugares que nunca esteve e nomes que ninguém mais ousa falar. A própria marcação da passagem trata de expor a falta de compromisso com a lógica, que seu personagem matou. Porém, os momentos deslocados em que o espectador não sente essa falta de progressão na narrativa, surgem com um certo delírio tropical de panelaços e determinadas falas que acabam mimetizando um processo já visível: a síntese de uma realidade dentro da ficção, entre o dispositivo e a fuga.

Desta forma, ao pé da TV as informações marcam os momentos da pandemia, os horrores do descaso do Estado Brasileiro e o negacionismo. As questões não se apresentam como um problema em um momento imediato, mas determinadas exposições como “…à direita e à esquerda”, indicando os descaminhos tomados pelo país, em exemplificação com os corredores de sua casa, demonstra a necessidade de utilizar-se de recursos que dinamize um suposto debate político para além do corpo do ator entre a ficção e a realidade. É uma investida que procura materializar o debate na analogia e acaba se encerrando no próprio limite desses reflexos. Em contraste, “Diário dentro da noite” é consciente de como trabalhar sua linguagem e dispositivos nesses espaços repetidos, compreendendo que a passagem do tempo é um recurso que pode ser manipulado com uma simples lanterna virada para a câmera, enquanto Chico se debruça sobre o papel no escritório. Não por acaso a montagem desenvolve as particularidades dessa narrativa a partir dos elementos previamente apresentados, o que dá a sensação de ciclos repensados e quebrados.

Tratando mais dessa angústia do personagem que de seus próprios espaços, ainda que encontrando boas maneiras de fugir de certas limitações (como no caso do mapa virtual que indica os lugares por onde passou ao longo dos anos), o filme não é unilateral em suas escolhas e as tomadas de decisão de localizar o espectador com a vista da janela de um dos cômodos, também é capaz de dar maior concretude às manifestações de seus vizinhos. Existem momentos em que a proposta acaba se esgotando para uma certa repetição temática, toda a sequência envolvendo o ato de pegar sol e trabalhar com as medidas de proteção, não conseguem encontrar um bom lugar no meio do desenvolvimento, ainda que sirva como uma breve exposição das diferentes perspectivas que dominam ao longo do isolamento.

“Diário dentro da noite” reforça a força das criações de Chico Diaz e transfigura sua própria adaptação à traição da linguagem, em um sentido pouco literal. Assim, é extremamente eficaz em sustentar a atenção do espectador por longos tempos e com mesma facilidade se perde na exaltação dos delírios tropicais. Por fim, a fuga toma duas dimensões distintas, uma ficcional e uma real, mas nenhuma delas termina nos espaços que começamos. Não por acaso, não é o isolamento que angustia, é a necessidade de pensar no que há lá fora, ainda que isso seja o início de um novo ciclo de desesperos e esperanças.

3 Nota do Crítico 5 1

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