Diante dos Meus Olhos

Preso Dentro da Própria Vontade

Por Jorge Cruz

André Felix pode ser nomeado de muitas coisas pela crítica, mas covardia é uma verbete que deverá passar longe de qualquer análise sobre sua estreia na direção em longa-metragem com “Diante dos Meus Olhos“. Ex-aluno de Francisco Grijó, autor do livro que conta a história da banda Os Mamíferos, ele viu nessa curiosa oportunidade de abordagem um desafio para roteirizar e dirigir um produto que já o coloca fora de uma zona de conforto que ele sequer criou.

Não é difícil encontrar na internet informações sobre o grupo musical que o filme se vale de argumento. Descrevendo e qualificando logo nos créditos iniciais quem foram Os Mamíferos, a veemência nas assertivas afastam a possibilidade (que não soaria tão absurda) de entender que a tal banda seria uma falsa premissa para uma espécie de mockumentary. Esse breve didatismo dos momentos iniciais se impõe a partir do momento que “Diante dos Meus Olhos” se revelará um documentário que se abstém de fornecer em uma bandeja tudo o que o espectador deveria saber sobre o tal grupo (ou até mesmo uma considerável parte). Mesmo assim, o cineasta não se priva de utilizar elementos comuns na experiência de filmes desse gênero, inserindo algumas muletas narrativas para que o grande público não se afaste peremptoriamente da obra.

Félix (membro do júri do Olhar de Cinema 2019) utiliza como linha mestra do documentário algumas gravações musicais encontradas em profunda pesquisa. Todas elas provenientes de apresentações ao vivo, já que Os Mamíferos nunca registraram suas músicas em um estúdio profissional. O diretor ensaia materializar a influência que a banda exerceu em uma geração tropicalista, mas suas emulações não se preenchem com a subjetividade espontânea dos nomes consagrados pela contracultura. “Diante dos Meus Olhos” tenta subverter algo que sequer consegue definir. Não abadona a narrativa por completo, se preocupando em inserir o público no cotidiano dos integrantes da banda, hoje já idosos, para talvez atingir uma cumplicidade que além de difícil é incabível no que a obra se propõe.

Há algumas tentativas quase acidentais de contextualizar a banda no cenário musical brasileiro. Por serem de Vitória, era um pouco óbvio que seus integrantes estivessem presentes no histórico Festival de Verão de Guarapari. Uma das passagens que, por óbvio, caberiam registros. Não há qualquer problema na utilização do referencial, na liberdade de um roteiro que reduz o que parecia ser o objeto em si em mero plot. Porém, peca a obra que não conduz esse obscurantismo narrativo de maneira que passa uma sensação de vazio em boa parte do seu tempo.

As histórias sendo contadas pelos depoentes enquanto o documentarista faz intervenções sem o uso do microfone tem o tempero brasileiro de Eduardo Coutinho. Só que, nesse caso, não há qualquer sentido em buscar origens junto ao entrevistado, eis que a obra em si se pauta no que acontece no presente. É elogiável essa autonomia do filme, querendo ter vida própria mesmo que sofra com algumas derrapadas. Todavia, a resignificação das canções de Os Mamíferos, a partir de uma composição imagética irregular, termina por procurar exclusivamente performances naturalistas sem que os depoentes, tão atraídos para o centro da ação, se mostrassem vocacionados para tal. Felix não leva até as últimas consequências essa linguagem moderna do gênero, deixando transparecer certa inocência em sua abordagem. Parece não aceitar que o produto gestado na boa intenção deixou a desejar como objeto quando as câmeras foram ligadas. O espectador não se sente conectado com as pessoas e fatos contados ou vividos ao longo da projeção. As imagens experimentadas deixam a sensação de que os homens ali desnudados em seu cotidiano foram meras cobaias de uma busca estética do diretor.

Sempre que a obra parece que vai abraçar novas linguagens, ela retoma pontos básicos de quem sempre realiza produtos desta natureza. Ao não materializar a ousadia flagrantemente percebida, “Diante dos Meus Olhos” força uma incongruência a ponto de prejudicar a verossimilhança do que se quer retratar. Não merece ser repelido, uma vez que essa transição por certos maneirismos cinefilistas acabam produzindo bons momentos e a equipe liderada pelo diretor comprova sem esforço seu talento. Porém, mesclar experimentações e poetizações com números musicais tradicionalistas ao extremo tornam o filme, a partir de sua montagem, uma obra incoerente.

 

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