Descarte

Uma urgência desengonçada

Por Vitor Velloso

Amazon Prime Video

“Descarte” de Leonardo Brant recém lançado na Amazon Prime Video é um daqueles documentários que compreendemos a importância de sua exibição e podemos discutir a temática por dias, horas e anos. A questão do descarte recebe aqui um tratamento à altura e ganha perspectivas distintas, diversas e plurais para encontrarmos uma solução.

O problema aqui é como essa condução é feita. Inicialmente o diretor tenta assumir um papel central no projeto, colocando o rosto e declarando uma insatisfação profunda com o atual momento que vivemos. Porém, os planos “dirigindo com olhar atento”, “#preocupado”… São bem cafonas. O barato acaba sendo direcionado para um olhar menos analítico e mais preocupado com a formalização da estrutura de exposição. Não há uma crítica direta aos responsáveis pela problemática, apenas um enredo que articula a obviedade de determinismos argumentativos. Essa questão não é nova, grande parte das obras de documentário que são lançadas em um ponto mais ativista de uma discussão acabam sendo engolidas pelos vácuos de suas abordagens.

As temáticas são interessantes, os pontos relevantes, mas falta um arrojo na hora de ser incisivo com os culpados do barato todo. É uma questão que une a esquerda liberal aos “conservadores ‘conscientes’”, essa apatia diante de uma realidade material e uma ilusão utópica da resolução por meio dos atos individuais. “Descarte” não assume propriamente essa proposição lúdica, mas expõe essa realidade como quem acredita que a revolução pessoal irá culminar na mudança prática de uma sociedade do consumo. A inocência aqui é apenas o sintoma de uma abordagem anti-materialista, ou vulgar na maneira como utiliza-se do método. Em qualquer um dos cenários o filme está mais preocupado com essa exposição constante de argumentos e questões que podem ser resolvidas imediatamente por cada um de nós.

O trecho mais profícuo da obra, que trabalha diretamente a situação de Jericoacoara, acaba passando rapidamente e sem grandes desdobramentos, revela a falta de material que seja capaz de construir uma condição para análise crítica de todos os pormenores da conjuntura local. Quando os dados aparecem a partir da voz em off, existe uma abertura maior de uma perspectiva totalizante da temática, que é fragilizada pela curta duração e por uma montagem que apenas tenta situar o espectador da condição geográfica do local, mas não parte em defesa de um rigor maior na legislação em torno dos turistas, dos produtos que chegam ao local etc.

“Descarte” acaba sendo um projeto frágil por não conseguir estruturar uma consciência totalizante que possa dar conta de frentes de debates que estejam fora de um individualismo pragmático ou da oralidade pouco efetiva. Se a resolução está em uma diretriz mais ampla que vai do Estado à iniciativa privada, que o pequeno empreendedor não seja a única frente de uma batalha que parece estar mais associada a conflitos de interesse entre as classes. E a esquerda liberal parece estar lucrando legal com isso.

Trailer

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