Desaprender a Dormir

Sonhos curiosos e mãos que fazem diversas coisas

Por Vitor Velloso

Durante o Festival Ecrã 2021

“Desaprender a Dormir” de Gustavo Vinagre mantém o caminho do cineasta em trilhar certas obsessões em um ambiente enclausurado, onde os medos e desejos passam a se confundir com delírios constantes. Seu novo filme parece mais perdido que os demais nas andanças que promove. Em um primeiro momento a estranheza dos insert e das propostas de ficção científica conseguem captar rapidamente o interesse do espectador pelas discussões anais e pornografia que interrompe o apetita sexual mais casual.

O barato é bem desestruturado, temos franceses com delírios eugenistas, fetiches pouco usuais, sexo explícito, pênis na câmera, anus na testa, narrativas envolvendo sonhos individuais mais esquisitos que os outros. Mas não é esse caos que gera uma certa falta de ritmo, é a forma com que parte dessas ideias são jogadas. Algumas cenas mais prosaicas que lembram os melhores momentos de Vinagre, como um debate virtual sobre “arejar dildos”, podem encantar o espectador, mas as coisas vão para um lado mais provocativo em “Desaprender a dormir”. Não como transgressão primária, e sim na linha de uma certa manifestação expositiva. No enquadramento em que o personagem de Gotardo, José, atravessa a tela com uma ereção evidente e pede que Flávio (Gustavo Vinagre) coloque um fone de ouvido para trabalhar, fica claro para o espectador que os caminhos não serão apenas da ficção científica de sexos explicitos e confinamentos.

As coisas desandam um bocado quando uma gama de elementos passam a nortear um trabalho que parece querer expor uma série de questões ao mesmo tempo. Desde a “zumbificação” da experiência do real à projeções cinematográficas em dildos introduzidos no orifício anal, o longa vai articulando as ideias a partir do quão provocativo alguns dos conceitos e reflexões podem ser diante dos próprios corpos presentes na encenação. Não há uma representação de um contexto político, mas sim de uma verve social que compreende alguns objetos presentes na narrativa a partir dessa transa de sensações. Seja no tesão ou em obsessões como “representação da viagem à Marte”, o filme passa a dialogar com múltiplas frentes e perde seu eixo principal. Em determinado momento é possível se perder na própria trama basilar, que se fragmenta a ponto de funcionar de forma isolada. E o próprio projeto reconhece parte disso, separando segmentos a partir de cartelas que aparecem na tela, criando certos “capítulos” dessa ficção explícita.

O problema é que conforme o progresso acontece, pouca coisa vai se desenvolvendo de fato, são mais fragmentos de ideias que vão encontrando resoluções na própria cena. Nesse sentido, é divertido acompanhar uma exposição que finda em si mesma, poucos minutos depois de sua apresentação, mas a sensação geral é de poucas formalizações e muitos conceitos à esmo. Ainda que parte do cinema de Gustavo Vinagre encontre na interpretação de Gotardo um certo motor oposto na base, as coisas não são sólidas o suficiente para manter o espectador diante da narrativa, apenas nos movimentos mais sincréticos que correm ao longo de pouco mais de uma hora e meia. Se as pessoas encontrarem razões de libido para permanecer até o fim da projeção, possivelmente irá encerrar o ciclo fatigado de determinados esforços.

Mas no todo, “Desaprender a dormir” soa mais um experimento que não consegue dar vida em si e acaba procurando referências sensoriais para criar um jogo de provocações que consiga ser mais direto na abordagem. Até onde as coisas funcionam, pode ser uma experiência um tanto particular, ainda que vez ou outra acabe caindo em algumas encenações (propositalmente) fajutas, que desavisados tomarão como uma surpresa desconcertante. Não é apenas um complemento da filmografia de um cineasta que constrói uma carreira de exposições e provocações, filosóficas ou carnais, é uma espécie de síntese que acaba seccionando demais suas ideias e funcionando pouco em unidade.

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