Depois a Louca Sou Eu
Da Desconstrução ao Puro Deboche
Por Jorge Cruz
Durante o Festival do Rio 2019
A transição da narrativa irônica, da desconstrução de si mesmo e do ligeiro deboche – maneiras inteligentes muito utilizadas pelo cronismo – demandam uma forte atenção quando o outro produto é uma narrativa ficcional, feita para exibição nas salas de cinema. Nenhuma linguagem artística é incomunicável com outra, porém, entender que um livro escrito em primeira pessoa, por alguém com lugar de fala aliada à qualidade estilística, não será recebida pelo público da mesma maneira que um filme estrelado por uma grande atriz global. Dito isso, pesa muito a representação relativista e exagerada na chacota identificada em “Depois a Louca Sou Eu“, dirigido por Julia Rezende.
O título da obra já merece ser problematizado. O vocábulo “louco” é reservado para quem age de forma excessivamente extravagante, com atitudes exageradas e (palavras do dicionário) fora da “normalidade”. Vamos deixar o conceito de normal de fora para não transformar a análise etimológica em uma fita-banana sem fim. Dentro da sociedade machista, “louca” tem um significado adicional: deslegitimar atos praticados por mulheres. Se a obra original, escrita por Tati Bernardi, desconstruirá esses concentos, em prol de um questionamento acerca de nossas opiniões maculadas pela misoginia, não ouso dizer. Fato é que o filme, selecionado para o Festival do Rio 2019 não chega nem perto disso.
“Depois a Louca Sou Eu” ridiculariza o transtorno de ansiedade, que acomete milhões de pessoas no país, do início ao final. Dani (Débora Falabella) narra sua história, iniciando sua trajetória tentando definir o momento em que se tornou ansiosa, ou – já que o tempo do politicamente correto acabou – louca. Tenta jogar na conta da falta de experiência sexual e sentencia que quando criança ela “era normal”. Daí em diante, o longa-metragem tenta completar um enorme checklist de possíveis ofensas a qualquer grupo ou manifestação da sociedade. Tudo com a chancela do público que na sessão assistida gargalhava a cada crise de ansiedade da personagem. A vontade de vomitar por conta do nervosismo, o choro incontrolável no banheiro, a maneira como deixa de tomar atitudes impulsivas com medo de não ser aceita, a introspecção causa pelo medo de estar errada. Em “Depois a Louca Sou Eu” tudo isso é piada.
A lista da chacota vai de benzedeiras a psicólogos, passando pela medicina alternativa. A mãe de Dani fica com a representação da pessoa próxima que atrapalha mais do que ajuda promovendo críticas fora de hora e dando conselhos constrangedores. O médico dá um diagnóstico errado e deixa a protagonista dopada de remédios que não precisaria tomar. A protagonista inventa em sua cabeça desculpas para não sair de casa e fugir de compromissos. Fica difícil imaginar representantes do público que tenham passado por alguma dessas situações se unindo na boa aceitação da obra. Ainda mais vendendo como solução o “amor” mais do que a auto-aceitação e o tratamento sério da doença. Só faltou dar uma chance para a Bíblia e grupos religiosos hegemônicos que, vejam só, não figuram no rol dos criticados. Uma produção que bate no mais fraco até não poder mais.
Rezende nos deixa diante de Dani em crise em tortos close, criando a sensação de claustrofóbico desespero. Para completar a lista, o roteiro de Gustavo Lipszein insere cenas de sexo sempre que possível, objetificando o corpo de Falabella que precisa ter novas crises antes, durante, depois – com ou sem roupa. Vale tudo por mais uma risada do povo. Quando tenta criar uma cena dramática, “Depois a Louca Sou Eu” falha miseravelmente. A platéia tão conectada com o deboche, apenas espera dois minutos ver a mãe da personagem preocupada com sua situação para sacar da bolsa um Rivotril e a edição engraçadinha gerar novas piadas fáceis. Aliás, em outro desserviço, o texto diz com todas as letras as drogas legais que podem ser tomadas por quem tem ansiedade, diagnosticada ou não.
Chega determinado momento que o cinema começa a rir antes mesmo que a piada fosse contextualizada. Dani vira uma pessoa-objeto, um Mr. Bean da ansiedade. Negativamente o filme supera o “Universo Leandro Hassum Cinematográfico”. Em “O Amor dá Trabalho“, seu trabalho mais recente, por exemplo, falamos o quanto a obra era pontualmente ofensiva, com gags mal encaixadas. Aqui não, a ofensa é em sua construção. Confesso que, pessoalmente (artifício dificilmente usado em minhas críticas), senti um pouco de nojo de presenciar a aceitação e risos de quem estava na sala de cinema em algumas das sequências. Por isso que se mostra um trabalho difícil pensar em adjetivar alguns dos elementos do filme. Outro exemplo ocorre no momento de uma entrevista para a TV, quando o roteiro é flagrantemente ficcional. Momento em que o longa-metragem é ainda mais humilhante.
Não poderia a mensagem final ser diferente do: lide com isso, só depende de você. Se a Era do Politicamente Correto acabou, viva a Era da Meritocracia, onde tudo pode ser superado. Há que defenda “Depois a Louca Sou Eu” dizendo que foi feito para rir da situação e não da pessoa. O filme não mostra isso. Dani nunca ri, sempre está em crise ou dopada. Procure nas suas referências formas parecidas de fazer graça com condições mais vulneráveis, causadas por limitações físicas ou doenças. Encontraremos apenas as comédias mais esdrúxulas do cinema dos Estados Unidos. O longa-metragem brasileiro, a despeito de um trio talentoso e muito bem-sucedido formado por Tati Bernardi, Julia Rezende e Débora Falabella, entra no rol de obras traumaticamente ofensivas ao não saber onde dar uma parada na estrada do escracho.