Deerskin: Estilo Matador

Impurezas renascidas

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Cannes 2019

Exibido como o filme de abertura da Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes 2019, “Deerskin: Estilo Matador” começa por uma clássica narrativa francesa até se transformar em um Thriller noir. É na simplicidade da história que se desenvolve o complexo e a cognição mais idiossincrática, que a psicanálise classifica como distúrbios da projeção repetitiva.

“Deerskin: Estilo Matador”, cujo título traduzido anterior era “A Jaqueta de Couro de Cervo” adentra a seara do absurdo real e da obsessão personificada (de condução mental), que sugere uma referencia a “Psicose”, de Alfred Hitchcock. Mas a fotografia nostálgica, a contemplação anacrônica, o close, a pseudo-improvisação cênica, a câmera frontal (de olhar, conversar e retomar o antes com o espectador), conduzida pelo peculiar, ingênuo e natural humor-seriedade, de espontaneidade orgânica, principalmente quando mescla o arcaico com o moderno, dentro de uma descontínua atemporalidade proposital., nos convida a viajar na transformação do protagonista, interna exposta ao exterior. O suspense, orquestrado por músicas direcionais, reproduz uma metafísica do comportamento. Algo estranho que o transmuta. Uma intrínseca, violenta, visceral, assassina e descabida vontade, quase uma possessão criada por ele mesmo, como uma defesa patológica da própria covardia de se esconder do confronto com a verdade. O hospedeiro e o monstro ao mesmo tempo que adentra no “velho oeste” (a figura do típico caubói), entre barulhos estranhos, elipses, cortes bruscos, cinema real, Spielberg pornô e Pulp Fiction.

Georges (interpretado e encarnado por Jean Dujardin – que traduz no olhar as camadas aprofundadas de seu protagonista) tem uma bizarra meta, quase impossível, trazida da característica competitiva dos americanos, de ser o único a ter uma única jaqueta de couro, tudo porque a de veludo não o fazia “respirar” mais. É um “renascimento”, de um “se tornar” o outro. A estranheza quebra os limites com os olhares julgadores, quase um falso documentário de um lado selvagem. Uma psicopatia que ganha força, alimentada pela acumulação emocional de “apelar” à facilidade “muleta sinapse” de um elemento real. Georges que “achou um propósito”, não convencional, subversivo e até perigoso, precisa agora se desvencilhar e encontrar uma nova razão existencial. É “tudo pelo grande louco sonho”.

Dirigido, roteirizado, editado e fotografado pelo francês Quentin Dupieux (que já abordou a estranheza de fantasia real em “Rubber, O Pneu Assassino”, assinando com o pseudônimo de Mr. Oizo), “Deerskin: Estilo Matador” comprova que com talento uma ideia simples pode ser bem executada. A mestria está em construir a perda de noção. A percepção do público é recriada por reviravoltas, situações extremas de ação-consequência e relações co-dependentes (com Denise, a atriz Adèle Haenel), uma aceitação que beira o transe de uma loucura ecoada, talvez esse “acordo” livre arbítrio ao mal se dê pelo vazio de uma crença, que se reconecta submissamente aos desejos alheios. Há uma humanização dos porquês inexplicáveis de Georges, e assim nós sentimos pena e respondemos com cumplicidade aos “desvios” mórbidos de nosso “protegido”.

“Deerskin: Estilo Matador”, assim como em “Rubber, O Pneu Assassino”, a narrativa nos leva a um realismo fantástico que não há efeitos especiais e sim apenas a imaginação. É nisso que está potência deste filme, que representa uma análise a uma sociedade errante, incessantemente culpada, e, por mais que busque a cura, são reféns de seus próprios males, aparências e feedbacks da “calça legal”. Nós podemos tentar explicar suas motivações dessa odisseia pessoal: estar desolado e com raiva por ter se separado de sua esposa; uma crise de meia-idade (ao invés de um carro novo, a escolha Wild “Easy Rider – Sem Destino”); e as finanças congeladas. A jaqueta é seu “Sancho Pança”. A câmera de vídeo, sua arma e seu “diário” de “vingar” o mundo das mentiras, amuleto que o faz se redescobrir. É uma história de amor. De um homem por sua jaqueta e que faz de tudo para protegê-la de não ser especial.

O dicionário define que o adjetivo bizarro é “o que se destaca pela boa aparência ou expressão pessoal; bem-apessoado; que tem bom porte ou boa postura corporal; garboso”. Mas também é o “informal”, “esquisito”, “extravagante”, enfim, tudo aquilo que não se enquadra na padronização do “normalmente” aceitável. E de certa forma essa sociedade em que vivemos potencializa a culpa do não se encaixar, gerando expectativas inalcançáveis e distúrbios de proteção à sobrevivência. Uma guerra diária e cruelmente desumana que “bagunça” os meandros da psique humana e desestrutura a real busca de si mesmo. “Deerskin: Estilo Matador” é tudo isso (mesmo) e mais um pouco, por ser livre, empírico e singular a sua essência impura e desenformada.


“Em Deerskin eu queria filmar a loucura. Eu tenho o rótulo de um diretor que faz filmes malucos, mas nunca tinha filmado a loucura”, diz o diretor. Ele completa: “eu realmente queria me confrontar com um personagem que descarrila, sem artifício, sem meus truques habituais. Aqui, o personagem é concreto. O mundo ao seu redor também. Você poderia passar por alguém como George na rua. Você poderia até ser o George e isso é assustador”.

“Eu não tive que convencer Jean, foi como um clique entre nós. Eu falei para ele sobre o filme e ele me disse que sim imediatamente. Acho que, como eu, a questão da obsessão o atraiu muito. Durante as filmagens o personagem estava praticamente encarnado nele, era totalmente habitado por Georges no set, podíamos ver nos olhos dele que não estava fingindo, ele viveu o filme ao mesmo tempo em que se divertia muito”, lembra Quentin Dupieux.


Estreia nas plataformas digitais, Now, Vivo Play, Apple TV, YouTube Filmes e Google Play no dia 14 de agosto.

Trailer

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