De Volta Para Casa

Memórias culinárias

Por Vitor Velloso

Os tempos mortos de “De Volta Para Casa”, de Wayne Wang, criam uma espécie de rigor dos espaços que são testemunhas do drama ali em andamento. O espectador que decidir se aventurar no filme, vai ter uma experiência de altos e baixos, marcadas literalmente pelas reações mútuas de cada um através da memória e de um cotidiano que retornam aos fragmentos. Os recantos do apartamento vão explorando as chagas entre essa relação de mãe e filho, incapazes de uma cura definitiva, seja no sentido literal ou figurado. De toda forma, o que se sustenta diante das quase uma hora e meia de projeção são os ciclos dessa relação e sua inconstância, a partir da deterioração da saúde da mãe e das atitudes do filho.

Existe uma certa fórmula no que vemos em tela, uma proposta que não se distingue gravemente dos modelos europeus que assumem o drama como única verve possível de uma linguagem cinematográfica que encontrou um certo repouso nos anos 2000. Seja com Michael Haneke ou os sintomas Truffautianos que ainda geram espasmos nas produções francesas, criou-se um certo limite temporal para que esses espaços se tornem a fonte de uma criação enviesada. Por mais que Wayne Wang se esforce para sair de um rigor inócuo e deixar as coisas fluírem com os vazios da prosa, não há muitos caminhos possíveis na estrutura monolítica de pausas dramáticas e reações explosivas em meio à calmaria. Aliás, uma tremenda regularidade imagética acaba reforçando os elos de “imagens poderosas”, com o atravessamento da mise-en-scène como um fator transgressor ao estoicismo. A cena da reunião em que o protagonista decide jogar no chão a bebida e agarrar o pescoço de sua mãe, demonstra menos um desespero dramático (ali em conformidade) e mais um rigor sendo quebrado pela encenação. Ou seja, são dispositivos em pleno funcionamento.

E se de outra forma poderíamos discutir “De Volta Para Casa” a partir de sua materialidade, sempre marcada na comida e nos atos cotidianos de agrados ou repulsas, o barato ainda se torna repetitiva, pois a base dessas recorrências não foge o senso comum do que esse grande cartão postal familiar pode oferecer como uma perda de sanidade diante da finitude das relações, por razões mortais. Em suma, a moral desse delírio não é nada além de uma repetição do dispositivo para criar conflitos imediatos que são resolvidos internamente, quando não na mesma cena. Por isso, quando analisamos a proposição de Wang no projeto, fica claro que os fragmentos até são capazes de montar uma unidade plausível, ainda que sem grandes efetividades. Se pelas recorrências à beira de um ataque de nervos de diversos lados distintos é costurada com as memórias não-diegéticas, nunca materializadas, os objetos culturais e alguns desses entraves se tornam as válvulas de escape para tal. Como o cristianismo que aparece como um problema entre a fé e a crença, talvez pelo fator mórbido da representação religiosa, essa negação surge pela violência, costumeiramente.

Mas o tédio provocado por “De Volta Para Casa” é mais complexo que parece, porque não existe uma falta de interesse, mas sim uma lentidão tão grande na exposição dessas relações que as coisas começam a se arrastar ao ponto das digressões dos tempos mortos se tornarem a única expressão dramática possível. Longe de ser inconsciente, essa relação com o tempo é uma ferramenta necessária na experiência, uma dilatação que até beneficia boa parte da projeção, só que encontra um ponto de saturação que leva à exaustão e consequentemente à olhar para o relógio com certa frequência. A utilização dos dispositivos para construir um filme que à primeira vista parece simples, demonstra uma provocação curiosa de Wang, mas a motivação parece excessivamente contemplada de uma necessidade de impor essas imagens como funcionalidades programáticas. E aí, a coisa desanda, tornando os minutos finais verdadeiramente desconcertantes.

Trailer

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