De Volta a Itália

Entre superfícies e ladeiras

Por Fabricio Duque

Festival do Rio no Telecine

A palavra padronização, um substantivo, traz em sua etimologia o significado da repetitividade de resultados, cuja forma sistemática ajuda nosso córtex cerebral a manter o equilíbrio do pensar, visto que nós somos bombardeados por milhares de estímulos em nossas sinapses, que precisam ser reconfiguradas. Essa normalização impede que o foco perca o controle, imitando tudo a padrões, regras e convenções. E sabendo que os humanos são adaptáveis, o cinema não perdeu tempo e categorizou os gêneros. Cada um com suas características próprias e seus confortáveis algoritmos. Drama, comédia, romance. Peraí, romance não pode ter comédia? Uns perguntaram aos criadores. Sim. Comédia dramática, comédia romântica, comédia dramática. E foi nesse momento que os responsáveis pelas denominações tinham dado um tiro nos próprios pés. Foi preciso construir clichês-alívios, como é o caso de “De Volta a Itália”, de James D’Arcy, com o chamariz de ter no elenco Liam Neeson, o pai Robert de Jack, o ator Micheál Richardson, seu filho na vida real..

A primeira pergunta-pensamento quando o filme acaba é: quem é o roteirista? Sim, é o próprio realizador, estreante na direção em longas-metragens, e com 81 créditos no IMDB como ator, incluindo o personagem Jarvis em “Vingadores: Ultimato”; Colonel Winnant em “Dunkirk”; Anthony Perkins em “Hitchcock”; Edward em “W.E.: O Romance do Século”. Por que seu currículo é tão importante destacar aqui? Vamos por partes. Em “De Volta a Itália”, uma típica comédia romântica europeia, entre Londres e Toscana, sua narrativa conduz o público por uma encenação estereotipada dos comportamentos costumeiros do cotidiano, como o clichê do pai mulherengo que não lembra o nome da mulher com quem passou a noite e/ou tentando conversar sobre “Hentai e se é arte ou pornografia”. Ainda que a câmera busque conversar com o cinema de arte em seu passeio inicial, o que assistimos soa mais como um episódio de uma novela, especialmente pela interpretação. As conversas acontecem pela artificialidade em uma trama que não quer mesmo se aprofundar mais intensamente, pululando obviedades da personalidade das personagens, avoadas em seus propósitos vazios. Seu currículo, então, é quase necessário para que possamos entender seus propósitos, mesmo quando compreendemos que jovens, como Jack, gostam de alimentar os próprios sofrimentos.

Em “De Volta a Itália”, até a edição, fora do ritmo, nos desestabiliza pela afobação ultra rápida dos cortes. Segue-se na superfície. “As coisas parecem piores no escuro”, diz-se. Peraí, luz acesa agora para ver se melhorou nosso gostar. Daí por diante, é ladeira abaixo. Lanterna no rosto do pai. Trilha-sonora sentimental-esperançosa para estimular memórias. O tom quer a comédia pastelão-raiz (só faltou a torta na cara, mas não caí na água com roupa), diluída no gatilho de humor constrangedor-desconfortável, tentando simular piadas-eufemismos por reações blasé-naturalista, por exemplo citando “A Megera Domada”, de William Shakespeare. O filme suplica a cumplicidade inocente e de pena de quem assiste. O romance surge pelo comportamento destrambelhado do protagonista ao do chão encontrar a mulher solar, Ruth, que fala “inglês muito bem” e que aprendeu assistindo “Pernalonga”. Mais artificialidades entre as conversas dos dois, que mais parece esquetes-cenas de um curso de inglês, em que nós nos sentimos tratados com infantilização das ações, reviravoltas e reações. Há uma idiotização desnecessária. Como o tratamento com o povo local. Como a cantina italiana que toca jazz. Como a relação com uma divorciada. Como a câmera, uma vez subjetiva, outra, lenta. Como a “Toscana criativa”. Como os desenhos perfeitos (consegue “traduzir quem a pessoa é na verdade”) e/ou feitos com “graça”. Não há dramaticidade. Não há melodrama. Não há o que a sentir. Não há tampouco fragilidades no roteiro. Não há nada. Até quando essa idiotização entra em contato com o nível mais baixo de outra idiotização.

“De Volta a Itália” é uma história sobre aprender a recomeçar. A aceitar o fim do luto. Um pai que faz de tudo para “tirar a dor do filho”, com um que de “A Vida é Bela”. Uma coisa precisamos admitir, o filme não muda de forma, como o discurso redentor de Robert, para “respeitar a memória da casa” e da vida que teve ali. O final, inevitavelmente, é feliz. Conflitos resolvidos. Propósitos ressignificados aos moldes de “Um Lugar Chamado Nothing Hill”, de Roger Michell, a mesma cena do banco, mas sem livro. Depois de tudo, só nos resta o entendimento piedoso em saber que esta é o conceito do diretor de uma comédia romântica.

Trailer

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