De Peito Aberto

Mãe como ato político

Por Vitor Velloso

Um documentário dedicado a mães irá conter belos depoimentos e uma ampla discussão acerca da função que rodeia essas mulheres, colocando em questão a divisão do tempo com o trabalho, marido (se tiver) e a casa. O que encanta em “De Peito Aberto” de Graziela Mantoanelli é a postura de encarar o fato de ser mãe como um ato político e acima de tudo buscar romper com a visão romantizada que há.

Iniciando com um discurso que irá nortear a importância do leite materno, logo vemos as intenções de Graziela ao mostrar um pai que diz: “Ainda não chegou o momento das funções do pai né?”, acreditando que tornar-se o mesmo apenas é possível com o desenvolvimento da criança.

Resumir o filme a tratar do pai durante a maternidade é assumir aquilo que a diretora está criticando. “De Peito Aberto” foca, de fato, na força dessas mulheres em admitir o fardo de uma sociedade que impõe a elas limitações sociais e de rotina. Não à toa, parte da projeção se mantém em um questionamento histórico, que irá demonstrar as diferenças dos papéis das mães brancas e negras, indo de encontro à ama de leite etc. E a força do documentário está nesta versatilidade dentro de um assunto tão complexo, mas simplificado pela mídia e pessoas em geral.

O tratamento é feito de maneira direta e com entrevistas que vão enquadrar 180 dias na vida das personagens. Recorrendo ao modelo clássico, a cineasta se utiliza do material da maneira que acredita ser a mais didática no processo de discussão do tema, sem recorrer a grandes feitos formais. A escolha pontua de maneira cirúrgica o que deve ser trabalhado, sem perder o foco. Porém, acaba se descontrolando no fluxo, que parece ir e vir nas abordagens, sem uma conexão concreta e que fixa uma construção pré-definida. Ainda assim a montagem tem o mérito de respeitar o tempo das falas e provocar o confronto de pensamentos antagônicos, seja a partir de imagens ou entrevistas.

Sem poupar a indústria médica e as instituições familiares, “De Peito Aberto” vai de encontro as mentiras propagadas pelo mercado farmacêutico, que chega a dar tabelas aos pediatras para que estes sigam os modelos pré-definidos de negócios deles, ou seja, provocando uma reação em cadeias das mães à gastar dinheiro com seus produtos e por consequência interferir diretamente no crescimento dos bebês. Já no âmbito mais tradicional, que diz respeito aos “valores” (construção dada a partir do processo de colonização), o documentário é hábil em esclarecer que torna-se uma vereda cultural ao atingir todos os meios da sociedade.

Homens e mulheres cedem ao conformismo da retórica e acabam repassando as deficiências do convívio adiante, por uma falta de pensamento crítico ou mesmo acompanhamento direto com um profissional sério. Desta maneira, Graziela corre atrás de depoimentos de especialistas de diversas áreas, que inclui, Medicina, Psicologia, História etc. para que seja arquitetado um discurso sólido que consiga romper com essas ideias ultrapassadas.

Fugindo da narrativa convencional, o filme se distancia dos momentos onde a sociedade cai diretamente sobre os filhos, a situação em que as mães perdem parcialmente o protagonismo sob suas vidas. É interessante pensar que a postura está diretamente ligada à inocência daqueles indivíduos, que são incapazes de realizar qualquer ato individual e são dependentes diretamente de suas mães.

A impossibilidade de separar as duas rotinas, torna o exercício documental ainda mais complexo, pois a temática irá girar em torno dos bebês, sem nunca colocá-los no centro do debate, pois eles são o próprio assunto e as mães que regem os mesmos, com ou sem apoio do pai. Estes são parte de uma fálica e volátil construção tóxica que os transformam em agentes passivos de uma lógica que requer a presença deles com mais frequência que normalmente vemos. Quando estão ali.

“De Peito Aberto” é um documentário sincero que vai atingir parte significativa dos espectadores, nem que apenas levante a reflexão pós sessão. Infelizmente não vai possuir a distribuição que deveria, por falta de mercado e público para tal. O filme deveria ser exibido em escolas do ensino médio, a fim de buscar uma desconstrução desse estigma tão turvo do que é maternidade e, por tabela, paternidade.

 

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