De Onde Viemos, Para Onde Vamos

A paz invisível

Por Ciro Araujo

Durante o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro 2021

De Onde Viemos, Para Onde Vamos

O cinema em muitas vezes é uma representação da realidade ou de si mesmo, uma quebra da própria parede dramática. Essa metalinguagem é apresentada também em “De onde viemos, para onde vamos”, um filme que realiza o trabalho surpreende de discutir a preservação cultural indígena em um mundo tão amplamente divulgado pela mídia e cada vez mais aberto ao resto do globo. Rochane Torres, a diretora, se encontra diante da encruzilhada de uma tribo do povo Iny, que está cada vez mais escassa, mas por consequência misturada com o branco. 

Dividida em cinco partes, todas se interligam através da preocupação principal cuja problemática não é tão contemporânea quanto se pensa. Como introduzir povos indígenas na sociedade contemporânea sem que percam sua própria cultura? É possível algo assim ou o próprio pensar a respeito já não torna um ponto de vista etnocêntrico e problemático? Em seu primeiro momento, uma fala importante sobre o próprio cinema e o próprio ato de filmar. Tal noção sendo ensinada, desde cedo, a jovens curiosos, que procuram com um olhar magnetizado compreender a função de uma câmera. É um processo que funciona não apenas fisicamente, como socialmente, uma passagem da fala. Dê a voz a quem deseja. 

No prosseguir de “De onde viemos, para onde vamos”, o questionamento utilizado da tribo assumir cada vez mais esse caráter contemporâneo colonial vai se tornando mais evidente. É jogado, agora, explicitamente para a câmera, em entrevistas expositivas. A montagem trabalha para alternar momentos esotéricos, que traduzem um contraste narrativo diante de relatos. Essa tensão eminente dentro da película que passa vai continuar até seu final, sem uma explosão de fato. É um motor que insere a movimentação até rítmica que ele possui, alimentando sua própria forma.  

“O povo do céu vem visitar o povo da terra na época da festa de Casa Grande. Vem duas vezes.”. Um diálogo que marca, diante dessa invasão tecnológica trazida até pelas motocicletas. Logo mais, uma passagem com uma jovem chamada Narúbia. Ela explica a própria constituição e opressão existente dentro da própria separação. Afinal, nunca foi novidade o tratamento existente, a divisão clara. “Macaco preto” é a origem do nome Carajá, uma denominação totalmente absurda dada por bandeirantes. A personagem explica exatamente a questão sobre a assimilação cultural proposta, de introduzir para uma sociedade branca. A questão é o caos deixado, isto é, negligência estatal da manutenção e o princípio de uma autodeterminação do povo. A separação casuística torna-se muito mais um conflito de interesses. Transformar em animais quando convêm, integrar quando há o que ganhar. Rochane captura essa explicitação como o ponto através de uma câmera que quase voa. Ela percorre as ações numa tranquilidade, enquanto observa pacificamente como é uma rotina para.  

As filmagens possuem uma estranha paz, tão estranha diante da tensão provocada. O que é quase um retiro insere na verdade uma imersão dentro da cultura provida. Os povos originários no Brasil integravam uma rara diferença comparada a muitos países da América Latina. Não existia uma espécie de integralidade, de convergência e muito menos a ambição imperial que regeu civilizações como os Incas. A diluição era um fruto de armazenamento muito interno culturalmente. Assim, através da tela que exibe com exatidão essas emoções, a quietude torna-se um elemento dentro da proposta linguística ali. 

“De onde viemos, para onde vamos” utilizar-se de seu nome em si para criar uma pergunta que questiona ao povo observado. Qual é o destino de uma cultura que segue indefinida? Por exemplo, peguemos o exemplo do povo Cinta-larga, massacrados no chamado “Paralelo 11”. A solução encontrada foi utilizar-se do garimpo como forma de enriquecerem. O impasse criado por um povo que não é defendido pelo estado, que é invisibilizado, mas demanda recursos. Para saírem do oculto recorrem ao método do branco, uma forma tão primitiva e egoísta. O impasse que fica é um amargor na boca, que vive através de uma política tão instável que percorre na veia do país. O Brasil, inserido na necropolítica, assume o caráter opressivo e força o indígena a viver sem perspectiva alguma. Rochane Torres entrega exatamente esse caráter de duo através de imagens pacíficas rotineiras e entrevistas. De novo, dê a voz a quem deseja. 

Trailer

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