De Cabral a George Floyd: Onde Arde o Fogo Sagrado da Liberdade

Os distintos contextos em conjunto

Por Vitor Velloso

Durante o Festival Recine 2021

Longa exibido no RECINE 2021, “De Cabral a George Floyd: Onde Arde o Fogo Sagrado da Liberdade” de Paulinho Sacramento foi realizado durante a pandemia da COVID-19 e conta com numerosos trechos de filmes e vídeos de diversos lugares para construir um recorte sobre o racismo no Brasil, desde os atos de violência da polícia à necessidade de políticas afirmativas. Diferentemente de muitas outras obras, o documentário toca na questão da propriedade, mesmo que de forma abrangente, por vezes superficial, mas a necessidade de abrir o debate para as diversas faces do racismo que não se encerra no campo moral, faz com que Abdias do Nascimento, Milton Santos, Silvio Almeida, Djamila Ribeiro, Malcolm X, Martin Luther King Jr., Angela Davis e Zezé Motta possam dialogar em contextos gerais, sem que haja uma fuga primária da centralidade da abordagem.

A fala de Milton, inclusive, é uma das que melhor representa o caso brasileiro, onde muitas vezes vemos as comparações mais imediatas à outros lugares do globo, quando deveríamos compreender as particularidades do caso brasileiro. Porém, se as falas conseguem criar uma composição interessante na complexidade da questão, “De Cabral a George Floyd: Onde Arde o Fogo Sagrado da Liberdade” é bem desorganizado para construir uma linha de raciocínio bem estruturado e além de não conseguir gerar uma dialética desse recorte, acaba demonstrando a fragilidade da “citação”. Pois a montagem bem articulada, seria capaz de criar um pensamento mesmo que com o “vício” de pensar com a fala dos outros, porém muitos trechos acabam sendo desconexos e encerram a discussão em si. Os clipes que envolvem poesias e performances antirracistas, na grande maioria das vezes, são colocados à esmo quase que para cumprir um certo vácuo do material recolhido. O que poderia ser resolvido com a organização mais racional e menos emotiva dessas falas. Exatamente aquilo que Milton estava denunciando em seu trecho.

E essas quedas de ritmo e solidez na exposição, fazem com que a experiência de quase duas horas e vinte, seja uma verdadeira montanha russa, que salta de um lado para o outro, de contextos distintos na tentativa de criar uma totalidade. Porém, essa iniciativa de partir do todo, gera a impressão de uma série de retalhos que vão se amontoando sem um objetivo claro, ainda que seja possível compreender a intenção da obra. As diferentes qualidades de imagens e legendas, mostra que a captação desse material foi uma tarefa extenuante e que a pesquisa procurou em diversos locais uma correspondência para falarmos do racismo brasileiro. Tanto no período da escravidão, quanto na exploração do trabalho, mesmo que este ponto ainda fique na superfície.

Outro ponto que gera algum atrito no documentário, é a investida de assimilar um conjunto de diversidades na fala, que aparentam possuir um mesmo inimigo, mas que partem de lugares tão distintos que relativizam certos pensamentos. Como é o caso da fala de Karnal e Milton Santos, que apesar de não estarem em sequência, faz o espectador sentir as contradições inerentes da obra, que por não pensar por si, dá lugar aos que já se debruçaram, e alguns perderam a vida, sobre a questão.

Assim, o que pesa em “De Cabral a George Floyd: Onde Arde o Fogo Sagrado da Liberdade”, não são as ideias ali projetadas, mas sim a fragilidade na organização das mesmas. O esforço de Paulinho Sacramento na realização da obra impressiona, ainda mais quando lembramos que todo esse processo foi feito durante a pandemia da Covid-19. Porém, a falta de concretude infelizmente faz com que o documentário se perca em algumas divagações poéticas ou mesmo na falta de um encontro dessas falas. Ainda assim, existe um certo caráter didático em parte do filme, em trechos, não na totalidade.

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